Para Viver de Saudades
Jadir
Oliveira e Vianei Oliveira
Depois que vim lá de fora
nunca mais contei estrelas
Com tanta luz na cidade, mal
e mal consigo vê-las.
Depois que vim lá de fora
muita coisa em mim mudou
Talvez não seja a metade de
tudo aquilo que sou.
Depois que vim lá de fora
nunca mais peguei na enxada
Tão pouco ajudei os galos
acordar a madrugada.
Não armei mais “aripuca” nem tomei banho de sanga
Não mais encontrei Maria no
velho pé de pitanga.
Não cantei mais de improviso
nas tertúlias de galpão
Mudou o brilho dos olhos e o
gosto do chimarrão.
Não mais ordenhei tambeiras para beber o apojo
E a velha junta de bois não
viu mais canga e ajojo.
Já não tenho mãos calosas da
minha tesoura de esquila
E em vez de sair pro campo o meu destino é a vila.
Nunca mais levantei cedo pras
carreiras de domingo
Neste rodeio de pedras não
tem lugar pro meu pingo.
Não sinto o vento na cara me
esvoaçando a melena
Aqui a saudade é grande e a
liberdade é pequena.
Não vejo a lua de prata
clareando o espelho do rio
Calou-se minha guitarra ao
ver o peito vazio.
Nunca mais eu vi as balsas
nas enchentes do Uruguai
Nem mesmo o vulto na proa e o
sorriso do meu Pai.
Não sinto mais o dourado
golpear com força o anzol
Brilhando o lombo nas águas
de contraponto com o sol.
Não escutei mais o ronco do Bugiu chamando chuva
Nem melei abelha braba num
oco de cabriúva.
Quando eu olho pra trás só
vejo o vazio do nada
O vento apagou meu rastro na
poeira rubra da estrada.
Hoje me sinto perdido sem
saber o que fazer
Meu campo virou cimento sem
espaço pra correr.
Depois que vim lá de fora
nunca mais contei estrelas
Com tanta luz na cidade, mal
e mal consigo vê-las.
Dizem que a lembrança viva
enxergou solo fecundo
Para plantar a saudade nas restevas do meu mundo
Desde então deixei meus
sonhos pra encarar a realidade
Deixei de viver no campo para
viver de saudades.