Onde Andará o
Missioneiro?
José Luiz dos Santos e
Don Arabi Rodrigues
Os ventos da liberdade
não sopram na madrugada,
aprisionando em silêncio,
campeiros que se bandearam
pelas vielas urbanas
na busca de novo rumo.
Sobrevivência mundana
que teima tornar os homens
tão distantes de si mesmo,
reféns de seus devaneios.
Eu sou mais um desgarrado
dum tempo que se perdeu;
não vivendo, sobrevivo,
enxergando o que vivi;
com visões nuas e cruas
que o ego não esqueceu.
A noite mexe os anseios,
para encontrar nos pessuelos
os “recuerdos”
do passado,
relembrando o que já fui.
Pareço um pouco distante
deste mundo dos andantes;
escuto canto de galos,
lembrando um ritual antigo,
que ainda guardo comigo,
pras longas noites de insônia:
fazer de conta, que as horas,
cabem dentro de segundos
e o rosicler
das auroras
são luzes destes meus mundos.
Depois do primeiro sono,
me reviro nos pelegos;
são tantos desassossegos
que me deixam em “confusão”.
Onde andará o missioneiro,
que sempre me acompanhou,
altivo, guapo, altaneiro,
quebrador de geada pampa,
quando o brilho da boieira,
vinha alumiar minha alma?
Por onde andará o parceiro,
que fez minha identidade,
“templada” em aço polido,
buscando a estrela do norte,
levando a Cruz de Lorena,
do lado esquerdo do peito,
num ideal libertário,
herança vinda do berço
“de quem já tomava mate
quando o Rio Grande nasceu?”
Onde andará o missioneiro,
que domava potro xucro
e vencia muitas léguas,
percorrendo sesmarias
na eterna busca do sonho
de também ter “o seu canto”;
reculutando
os irmãos
crioulos da “pachamama”,
pra que também se tornassem
os senhores deste chão?
Onde andará o missioneiro,
de vincha
cobrindo a testa,
co’a
melena esparramada;
que arrastava as alpargatas
pelos bailes de ramada,
no tranco de um chamamé?
Onde andará altiva estampa
do monarca cisplatino,
que deixava entre suspiros,
corações ardendo em chama?
Onde andará o missioneiro,
campeiro das noites frias,
ouvinte das sinfonias
de menestréis emplumados,
“cravando o facão no toco”,
desde a aurora até o poente?
Encanto de vida e gente,
palanque de resistência,
que o destino só reserva
àqueles que tem tutano.
Salto do catre desperto,
esperando reencontrá-lo.
-Co’a visão “inda” embaçada,
ao pé do fogão campeiro,
me dou por conta, o parceiro:
vive aqui, no meu silêncio.
Por que será, que os invernos,
fazem as noites mais longas,
trazendo os dias modernos,
com floreios de milongas?
Cevo um mate e sorvo outro,
no sereno das lembranças;
sonhando, mesmo acordado,
(enxerguei, vindo à distância);
e ao ficar perto de mim,
ouço a voz tão firme e forte
que me diz: - Estou aqui,
sou o “missioneiro” que chamas!
- Agora, pega o violão
para matar a saudade!
Renasço e grito faceiro:
- Por onde andavas, vivente?
Co’a pergunta ao pé da letra,
na resposta me desperto,
interrompendo a conversa.
Num lampejo, a realidade
sobressai do pensamento;
trabalhar de peão por dia
é tudo quanto me resta,
pra garantir o sustento.
“Fico de pronto” em silêncio,
sinto os olhos que marejam,
vendo a luz que se apagou;
sigo a vida passo a passo,
ombreando o fardo pesado
que o destino me legou.
Adeus, antigo parceiro,
até mais, se Deus quiser.
Também já fui missioneiro,
hoje, nem sei mais quem sou!