Negociador do Futuro
Dionilara
de Oliveira
Olhos ariscos de quem foge do fogo.
Miram lentamente o mar verde
araucárias.
Quem negocia o futuro não
sabe o que vai comprar.
Sua vontade era riqueza.
Mas porque possuir quando
quer se esconder?
Sim quem negocia o futuro não
sabe o que vai comprar.
Pobre soldado incapaz de
prever o que vinha,
Tinha terras, invernadas, mas
mantinha uma vontade tordilha,
Por campear sempre mais.
Possuiu tudo que sempre quis.
Mas porque querer sempre
mais?
Talvez quisesse coisas que o
dinheiro não é capaz comprar.
Fez amizade com quem lhe
podia prover sempre mais.
Quem negocia o futuro não
sabe o que vai comprar!
Chico escolheu pra seu par
Maria Joana.
Que muito mais que seu olhar,
vinha a ser caborteira também.
Como o gado selvagem que ele
detinha.
Desertor desposou Maria, para
aliviar sua vida rica e quem sabe vazia.
Casou com sua linda.
Mal sabia, destino curto ela
teria.
Quem negocia o futuro não
sabe o que vai comprar!
Os dois se entranharam igual
o verde pesado dos matos sem fim.
Que destino teria a guria
mais linda?
Negociou com governo.
Entre estradas e trilhas.
Foi demarcando seu chão.
Como pode um desertor
negociar com um governo?
Assim ele o fez, traçou tudo
que queria.
E por entre as estradas e trilhas foi-se erguendo a região
Quem negocia o futuro não
sabe o que vai comprar!
Guardou todo ouro que pode,
através dele foi apresentado a lealdades.
Era posseiro de muitas
riquezas e sonhos.
Até que um dia sua amada
Maria fez-se gestar.
Mas não sabia Maria
que quem negocia o futuro não
sabe o que vai comprar!
Sofreu a pobre tentando
parir.
Sua dor teve fim quando a
morte lhe viu.
Agora Chico sem Maria e sem
cria.
Quis negociar muito mais.
Escolheu dentre todos aqueles que julgava leal.
Carregou sua riqueza como
quem carrega o amor.
Quem negocia o futuro não
sabe o que vai comprar!
No alto de um morro levou
todo ouro que tinha.
Como não existe segredo entre
dois.
Nomeou a lealdade pra cavar
sua própria cova.
Com a desculpa traiçoeira de
que seria o único a saber.
Lealdade cavou com vontade a
cova funda.
“Da terra veio pra terra
volta.”
E o ouro foi plantado.
E adubado com o corpo da
lealdade.
Quem negocia o futuro não
sabe o que vai comprar!
A cova bem adubada.
Com resíduos de lealdade.
A quem diga que ouro na terra
dá cria e transforma.
Mas quem negocia o futuro não
sabe o que vai comprar!
Triste a sina leal.
Plantou ouro, nasceu água.
Que no entardecer maragato.
Refletia pras vistas uma
lagoa de ouro.
Quem negocia o futuro não
sabe o que vai comprar.
E os anos se foram passando
entre segredos e prosas.
Aquilo tudo pertencia ao
soldado foi-se aos poucos se indo.
Nada dessa terra pertence a
quem já partiu.
E quem veio queria encontrar
sua riqueza.
Tudo que planta cresce e
floresce.
Em cada pedaço de chão.
Foi plantando a esperança.
Onde se projetou abundância
de terras fecundas,
Hoje se avista a riqueza do
chão.
Como poderia saber um
soldado?
Que todo tesouro plantado um
dia iria brotar?
E tão pouco sabia que as
terras que ele tinha.
Hoje seria a prosperidade de
muitos.
E quem negocia o futuro não
sabe o que vai comprar!
Mesmo sem herdeiro ele
deixou,
Uma herança pra todos,
De nunca perder a esperança,
De achar o ouro plantado
nesse lugar.
Engana-se o vivente.
Que campeia ouro na terra.
A riqueza brota em qualquer
semente.
Pois quem negocia o futuro
não sabe o que vai comprar!
E assim a riqueza se faz.
Encilhada com a sorte de quem
vai plantar.
E o tal dito tesouro tá
fincado n'alma,
Desses que nasceram nesse
lugar.
Pois quem tem ouro na terra
ele brota no olhar.