Me Identifico Campeiro
Roberto Paines Nunes

Eu pouco sei de cavalos e da lida campo a fora,

Não sei mistérios de campo, nem a lua pra enfrenar.

Mas essa gente grongueira, que acorda arrastando espora
E faz do campo sua vida, aprendi a respeitar.

Eu pouco sei de cavalos, da doma e sua ciência,

Não sei de dobras de laço e tipos de nó de cola
Mas admiro essa gente que cuida dessa querência!

Que fez pelas pradarias bem mais do que uma escola.

Eu pouco sei de cavalos, morfologia e pelagem,

Nem como quebrar o queixo conheço um pouco sequer.

Me basta, pra o meu conceito, que o campo requer coragem
Para saltar num malino e sair “batendo os talher” ...

Mas eu encilho o cavalo e me pilcho a preceito!

E busco a estampa mais taura pelos setembros farrapos,

Se me apresento campeiro, retratado ao meu jeito,

E porque tenho respeito ao que fazem esses guapos!

Mas, eu encilho o cavalo e as vezes nem me dou conta
Que por meu gosto e respeito a essa gente campeira,

Posso de alguma maneira até causar uma afronta
Mas a intenção é outra, de gratidão verdadeira!

Por isso... Encilho o cavalo e tapeio o chapéu na testa!

Por que admiro essa gente que há cada romper da aurora
Despertam as
sesmarias, antes do sol romper as frestas,

E chamam o novo dia num talareio de esporas.

Eu não entendo de laço, de armada ou tipos de pealo
E nem conheço da arte de lonca, tentos e tranças,

Nem tenho o pó da estrada no lombo do meu cavalo
Como carregam os
tauras, timbrando o pago em andanças.

Eu não sei de paleteada, de “pexar boi campo a fora”,

Não sei de tosa a martelo, nem de contagem na tarca.

Sei, que há um xucro encanto no retinido da espora
E num laço enrodilhado que vai “batendo na marca”!

Me agrada a xucra magia desse terrunho viver,

Que faz da simplicidade desses rituais campesinos
Forja de uma gente forte, xucros no jeito de ser,

Alma de campo e querência, rijos na fibra e no tino!

Me agrada a imagem de campo e a rudeza de um galpão,

A sinfonia dos pássaros, mesclado a um touro que berra,

O mate ao final de tarde, ao derredor do fogão,

Inspirando algum poema que vem com cheiro de terra!

Por isso se perguntarem qual a minha identidade,
Respondo, de alma inteira, que mesmo sendo povoeiro,

Há um sentir dentro ao peito que traz a minha verdade
Que eu não refugo ou renego...
me identifico campeiro!