Dos Olhos pra Dentro

Loresoni Barbosa

 

Hoje; meus olhos do avesso

Lavaram a alma e silêncio,

Molharam lembranças boas

Choveram mesmo! Pra dentro.

Procurei então alento

Nas asas da liberdade,

Mas vi que a dor é covarde,

Arranca penas do peito.

 

Desentalei arreios

E encilhei a saudade,

Para buscar o sentido

Do que sou de onde venho

Pois no sul do continente

Onde o vento esbarra forte

Estraviei minha sorte

- Virei da cana o engenho –

 

Amores trago no peito,

Astúcias trago na mala,

Se o coração atropela

A experiência é quem fala.

Meu ontem foi nostalgia,

Mas meu presente é perdão,

Meu peito é feito oratório,

Meu verso; inverso, pagão.

 

Como esquecer o passado

Que austero me bate a porta,

Se a saudade não suporta,

A ausência que vive em mim?..

Como aceitar o passado

Se o olhar madrugueiro,

Procura um par por parceiro

Pra ser dos sonhos o fim?

 

Assim me vejo por dentro

Atrás do que tanto quis,

Meio louco, meio santo,

Meio flor, meio raiz.

Milongueando noite à dentro

Pajeando a lua prateada,

O louco canta pra amada...

O santo pra meretriz.

 

O tempo encurtou distâncias

Trouxe “recuerdos buenos

De um tempo que já não tenho

Por ter usado na infância.

Brinquei com “gado de osso”,

Ergui mangueiras, bretes,

Escramuçei” belos fletes

Nos pagos da minha estância.

 

Sei bem; eram de taquara

Os malinos desse tempo

Bem domados, “crina” ao vento,

Orgulhos pra um domador.

Hoje; é a vida que atropela

Esse meu sonho maior,

Gastar mais um calendário,

Fazer mais versos de amor.

 

Pois quando volto a tapera

Divagando meus lamentos,

Sinto a quentura do vento

Se refrescar na figueira.

-Meu nome junto do dela-

Prova de amor inocente,

Que me inquieta o semblante

Se lembro as tardes com ela.

 

Agora; com ternura nas palavras

O tempo ancião me diz;

-A vida sempre dispara

De quem por muito lhe quis! –

Mesmo assim, lhe sou grato

Pelo perfume de flor;

Da prenda linda que habita

As noites de um sonhador.

 

Bebo aos tragos a noite

Masco o dia com calma,

Pois a lembrança da amada

Me alimenta e embriaga.

Nas tardes largas do tempo

Sigo mirando a cancela,

Vejo seus olhos mais verdes

E arco-íris na janela.

 

Buscando mais algum tempo

Pro sonho enfim ser feliz,

Não me encolho pra domas

Nem pra um amor aprendiz.

Escondo paixões e medos

Sob a copa do chapéu,

Querência dos meus segredos

Divisa de campo e céu

 

Enfim; a vida dispara

Fatal algoz dos finais,

Vejo meus sonhos distantes,

Amores tão desiguais!

Vejo a luz do meu futuro

Sombreando a dor da saudade

E essa lembrança covarde

Que não me esquece jamais.