Água Boa
Gujo Teixeira

 

Está em cada palavra...

Sob a custódia dos ventos

o meu silêncio e o intento

de perpetuar o meu tempo...

Que muito antes do sangue

correr nos campos fronteiros

dos campos de onde vim

haviam homens guerreiros

e seus cavalos campeiros

fazendo pátria, por mim...

 

Fomos todos batizados

na mesma sanga, rasinha

onde a querência não tinha

a dimensão que hoje tem.

Água de céu e de campo

sereno e grama rasteira

que a sanga da pitangueira

adoçou de galho em galho

numa cruzada de atalho

que mata a sede e a poeira.

 

Arrazoado em limites

me vi herdeiro da terra

onde a cerca não encerra

tudo que tem em seu preço.

Não sei, se quero, ou mereço

este destino que tenho

onde o campo me garante

pois aprendi ir adiante

por respeitar, de onde venho...

 

Meus ancestrais retornaram

pra me contar do seu tempo

com seus escritos guardados

em baús de esquecimentos.

Apontaram tempos novos

antecedendo a visão

onde um olhar de galpão

e picumãs de aroeira

deram a lição, por primeira:

- Que é de fechar a porteira

e sonhar, com o pé no chão...

Talvez, por isso inda hoje

eu volte a um tempo distante

sem mesmo saber, andante

se eu já estive por lá...

E paro a me questionar

qual a razão que me prende

a um passado que não entende

que um tempo novo, virá...

 

Por tudo, quero esta sede

pra muitos que ainda virão...

Que olhando a cena, me vejo

numa tarde de verão

qual piá que se “arremanga”

e bebe a água da sanga

na concha feita com a mão.

 

Satisfeito...

Agradeço mais um

dia por respirar a querência

que foi dos meus ancestrais...

Tomo um gole, depois outro

e a água boa, que sobra

me escapa por entre os dedos

e no seu rumo, se vai...