Relicário

Marcelo Domingues Dávila

 


Meu simples galpão de estância

Guarda lembranças antigas

Em cada nesga de história

Pendurada na parede;

Restos de tempo e memória

Que em rondas quase esquecidas

Reculutei nas distâncias

Em primaveras mais verdes.

 

Essas relíquias cravadas

No cerne da costaneira

São como livros abertos

Trazendo causos de campo:

Recuerdos vagos, incertos,

Que ao pé de algum fogo bueno

Um viejo de alma embrujada

Contava pra os pirilampos.

 

Meu galpão é um relicário

Com tesouros bem guardados...

 

Nas rudes obras de arte

Há uma cambona retinta

Mal sustentada na alça

Pregada à madeira crua:

Quantas noites repetidas

Se aquerenciou entre as brasas

Pra aquentar a água do mate

Sob o candeeiro da lua.

 

Ao lado, preso de um tento,

Um par de rosetas gastas

Lembra estrelas temporonas

Clareando o céu do galpão;

Vão longe as tardes de doma

Em que as esporas de prata

Riscavam o lombo tenso

De algum bagual redomão.

 

Acomodado num canto,

Em seu mutismo de sombra,

Um rádio a válvula espera

Que alguém venha despertá-lo:

Nunca mais uma milonga

Sobre ginete e cavalo!

Neste silêncio, o espanto

De quem se sabe tapera.

 

Também enfeita a parede

Uma guampa retorcida

Que fez as vezes de lança

Em bravas brigas de touro -

E hoje, depois de curtida,

É o pote pra canha branca

Que sempre mata minha sede

Quando desfilo no mouro.

 

Lá fora, bem junto à porta,

Onde o sol brinca de artista

Desenhando silhuetas

Entre as janelas fechadas

Uma roda de carreta –

Com as raias gastas e tortas –

Recorda quieta, intimista,

Seu tempo de carreteadas.

 

Tantos espólios da lida

Que o tempo juntou aos poucos

Neste campeiro inventário

Em madeira emoldurado;

Se os poetas, como os loucos,

Inventam sua própria vida,

Meu galpão é um relicário

Com tesouros bem guardados...

 

Nas tardes frias de junho

Quando o sol dorme mais cedo

E um chimarrão a capricho

Vem trazer reminiscências

Eu adivinho os segredos

Que se escondem pelos nichos

E me planto, mais terrunho,

No ventre da minha querência.

 

E quando a china maleva

Que tropeia a campo fora

Me pealar nessas andanças

Nos rumos da imensidão,

Será chegada minha hora –

Da vida nada se leva! –

Eu também serei lembrança

Nas paredes do galpão.