Em Nome do Pai

José Luiz Flores Moró

                            I

Em nome do Pai cheguei ao Filho

E aos antigos Seus ensinamentos...

Vaguei pelos sagrados testamentos

E provei da Sua força e de Seu brilho...

 

Em nome do homem fui caudilho

E senhor de império e regimentos,

De livre arbítrio para os sentimentos,

Mas com o dedo colado no gatilho...

 

Em nome de ideais eu fui guerreiro,

“Pau mandado” de barões e estancieiros

Para sustentar seus lauréis e suas ganâncias...

 

Em nome do ódio eu fui à guerra

E lutei por geografias de uma terra

Em que outros fizeram suas estâncias...

 

                               II

Em nome do Pai amei cretinos

E me preguei na cruz de seus mandares...

Fui o ouro de adorno em seus altares

Que os fariam gigantes e divinos...

 

Em nome da trombeta eu fiz destinos

Para marchas e conquistas militares...

Fui a nau que cruzou os sete mares

Com seus canhões e jugos assassinos...

 

Em nome da promessa eu fui paciente

Para retirar dos veios mais poluentes

As pepitas lapidadas do meu ouro...

 

Em nome da tropeada eu fui modelo

De um boi que enveredou... Como sinuelo...

Para o corredor letal do matadouro...

 

                              III

Em nome do Pai eu fui partidos

E decidi entre o branco e o vermelho...

Fui o ferro em brasa e fui o relho

Aos que se salvaram dos mortos e feridos...

 

Em nome da justiça ergui bandidos

Desnudados de diálogo e conselhos...

Fui dedo em riste que dobrou os joelhos

De párias prisioneiros e vencidos...

 

Em nome da ajuda eu fui promessa...

Em nome do cuidado eu tive pressa...

Em nome da oferta eu fui esmola...

 

A vida me ensinou não ter amigos

E a doar, como troféu, aos inimigos

A faca de Latorre pra degola...

 

                              IV

Em nome do Pai eu fui farrapo

Desenhando uma década de história

Nas páginas viradas que a memória

Guardou dependurada nos meus trapos...

 

Em nome das brigadas fui os fiapos

De uma milícia injusta e compulsória...

Em nome da derrota eu fui a glória

Que só laureou os maulas e os guapos...

 

Agora... Em nome do tempo eu sou passagem

Com bilhete só de ida para a viagem

Que deixa essa epopeia para trás...

 

Em nome da fuga eu traço o trilho...

Em nome do Pai descubro o Filho...

Em nome do Filho encontro a paz...