É Bem Assim Lá no Campo
Jadir Oliveira
O
campo que vive em mim é o mesmo dos meus avós,
que por mais que a vida passe e a gente se vá
embora
ele permanece vivo pra sempre dentro de nós...
Na
imensidão dos varzedos,
das canhadas e coxilhas,
de trevos e maçanilhas,
campeiro e campo se fundem como se fossem um só...
Na
construção do cenário que povoam as retinas
de quem de lá tem saudades,
os dias são um convite pra quem se vai bem
montado
levando um sol colorado
na tez bronze amorenada
que vem dar feições ao rosto de tempo e vento
judiado.
Os
verões lá do meu pago,
continuam tal aqueles
que os antigos nos contavam...
As
noites mornas e longas de um céu salino de estrelas,
de pirilampos nas várzeas tal qual estrelas de
chão,
contraponteando seus lumes com
o farol da boieira
e a magia do cruzeiro luzindo na imensidão.
As
manhãs quentes se erguem entrando meio dia adentro...
chamando a hora da sesta,
para o descanso dos velhos e a algazarra dos
piás,
que se vão rumbiando a
sanga pelos fundões dos potreiros,
inventando tantas artes
que nem me toca contar.
Os
fumacentos outonos se achegam devagarito
num semblante cor de sangue incendiando o sol se
pôr...
as folhas secas caídas formando um tapete pardo
que olhando despercebido até fica a impressão
que os dias não tem mais cor...
Os
pingos arrepiam pelos...
as aves calam seus cantos...
e somente as laranjeiras nos mostram toda a
magia,
com galhos amarelados,
como a dizerem que a vida não perdeu o seu sabor.
E o
que dizer dos invernos?
Aí,
sim, para um campeiro a vida tem emoção...
as manhãs vêm dar bom dia com várzeas brancas
de geada...
as rudes mãos calejadas vão acordando o galpão,
acendem o fogo amigo para aquentar a cambona,
depois cevam bem a cuia pra o doce amargo da vida...
pois é sempre no inverno que o mate apura o gosto
dando ânimo e coragem para empeçar a lida.
Nas
noites de aguaceiro e vento que gela a alma,
uma guitarra se acorda pra contar velhos
romances
que se fizeram cantigas na voz de algum
cantador...
e causos varam as noites entre risadas e goles
de uma canha temperada,
da cabriúva plantada na volta do corredor.
E
as primaveras? Que sonho...
Bueno
pra falar de amor...
As
flores abrem as pétalas de coloridos perfumes
como que se misturando com a moça da janela...
e o coração do campeiro
atropela as batidas qual o galope de um flete,
que traz ânsias romanceiras
num peito já pealado no verdor dos olhos dela.
É
bem assim lá no campo...
Na
verdade, sempre foi...
Pois
o campo é sempre o mesmo,
quem muda, são os campeiros...
na solidão dos potreiros há sempre um berro de
boi...
E a
gente tem pouco tempo, pois o tempo não perdoa
quem já nasceu com o destino de partir tempos
depois.
Quando
a gente vai-se embora
leva gravado cá dentro
n’algum recanto perdido que a memória
resguardou,
as coisas mais importantes e os tempos mais
felizes
que nesta curta volteada a sorte nos reservou.
É
por isso que retorno com ares de despedida
neste recanto onde a vida ainda é plena de luz
e vejo as mesmas paisagens que sempre serão
sagradas...
pena que o tempo maleva
mostrou-me o rumo da estrada
pra eu carregar minha cruz.
Nos
cinamomos copados cantam as mesmas cigarras...
Nos
galpões enfumaçados choram as mesmas guitarras...
A
sanga ainda é a mesma...
Mas
a água, é feito o homem,
que segue, não tem parada e vida afora se vai...
leva somente recuerdos
pois o tempo é um andante
que cruza a trote o caminho
levando a gente de tiro
pra não voltar nunca mais.