OS QUATRO NAIPES DO BARALHO

Matheus Bauer

 

                        I

 

Eu sempre vou levar, junto comigo,

os quatro velhos naipes do baralho

e sigo em frente, pra evitar atalhos,

ao trote qual um Capitão Rodrigo!

 

Eu vejo a sombra me emprestar abrigo

e sinto a firme formação dos galhos,

brotar as ramas como os seus retalhos

no vasto tronco de um ipê antigo!

 

Mas, sob a grama e junto ao solo quente,

desfruta um sonho forte e imponente

o que sustenta tudo visceral...

 

Eis a raiz que mansa e paciente,

mantém a vida calma e prudente

acomodada como um az de paus!

 

                     II

 

Meu flete vem mantendo sua figura

num ar de fidalguia soberano,

tornando bem melhor o cotidiano

deixando para trás minhas agruras!

 

Cortando essas campinas e planuras

no lombo de um gateado rabicano,

carrego minha história, além dos anos,

no fio do ferro preso na cintura!

 

Descansa na ternura da bainha,

seu jeito de donzela, de rainha,

com aço carcomido da geada...

 

Não sangra mais as vidas que detinha,

o tempo trouxe a paz que lhe amadrinha

e a adaga se tornou um az de espadas!

                                                                                                            

                  III

 

As pilchas já puídas de invernias,

bombacha constituída de tergal,

no lenço um escarlate do ancestral

e as botas que já foram boi um dia!

 

Na espora uma tafona, em euforia

girando na barriga do animal...

A roseta vem contar o essencial:

primor não tem a ver com judiaria!

 

O laço à bate cola retovado,

na anca do meu pingo faz costado

e as vezes se boleia para o céu...

 

A badana me conserva acomodado

e o campo me recorda, despojado,

que o naipe vem na copa do chapéu!

 

                       IV

 

A estrada tem suas flores, seus espinhos

e guarda suas mentiras e verdades,

eu vago, com a dor de uma saudade,

na espera de não mais andar sozinho!

 

São tantas as valias que o caminho

Afasta, sem nenhuma piedade,

e as vezes a sonhada liberdade,

reside bem na paz do nosso ninho!

 

São essas minhas mágoas andarilhas

que embalam tantos sonhos e tropilhas,

despidos dos desvios ou dos atalhos...

 

Reflito, bem no alto da coxilha:

o amor – transcendental - pela família

é o ouro iluminando o meu baralho!