O Fogão dos Tropeiros Mortos

Juliano Javoski

 

Dormem

sob a coberta de cinzas

do fogão tropeiro, mil histórias

das “mil e uma rondas”;

exageradas bravatas,

roubos de guaiacas, pisadas no pala,

duelos de faca...

 

Não bailam labaredas vivas

mas vagam lembranças mortas

a vigiar a antiga marca

queimada no couro do chão.

 

Irreal,

pra quem olha e nada vê.

Transcedental,

pra quem enxerga além-material.

 

O fogão dos tropeiros mortos

guarda contos não escritos,

pedras chamuscadas

sobre assuntos

e um resto de pai-de-fogo

em negras brasas entalhado.                     

 

Bivaque das almas

daqueles que partiram

na última comitiva

levando restos do fogo

na baeta dos ponchos

e picumãs

nas abas dos sombreiros.

 

Muitos creem

que, de fato, eles retornam

pra volta do braseiro,

talvez para concluírem alguns causos

atorados então, por um grito de sorro

ou o crocitar duma coruja

em noites que se perderam

na velhice do tempo.

 

Aparições,

mulheres de branco, taperas assombradas,

estórias “não bem contadas”,

segredos que, a pedido,

foram enterrados e esquecidos, ali

no campeiro sepulcro.

 

Assembleia

dos fantasmas desses tropeiros

lamentando sonhos não realizados,

qual poemas inacabados

porque, na sua vida, não deu tempo,

ou simplesmente

porque o mundo não os quis

por já serem velhos.

 

E mesmo assim

eles o amaram tanto;

e cercado por um megalítico

de pedras brutas,

duras qual a ingratidão,

deixaram um coração de prata

à sombra do antigo capão.

 

Eles retornam, sim,

pra amenizar saudades

deste mundo ao qual já pertenceram

e hoje, ele não os compreende

porque não os enxerga.

 

Não bailam labaredas vivas

mas ressongam cantigas mortas

de rondas que sobraram

de antigos relentos, e luares,

e vêm cruzando o tempo

e se perpetuando nas lendas.

 

Irreal,

mulheres de branco,

lobisomens, taperas assombradas!

Transcendental...

Um resto de pai-de-fogo

em negras brasas entalhado...

Poema inacabado...