O CAUDILHO E O
BASTARDO
Arabi Rodrigues e José
Luiz dos Santos
O Nico encilhou de tarde,
no “Rincão da Timbaúva”.
O tempo ameaçando chuva,
silêncio em ponto d’alarde.
Por que será, que o covarde,
planeja tudo em segredo?
É o medo de ter medo,
que faz prever o futuro,
ou é o disfarce do “perjuro”,
que enxerga a morte mais cedo?
Pois, não vê, que a noite traz,
presságios do tempo antigo.
Bem assim, como lhe digo:
o Nico, por ser audaz
trabalhou de capataz
na “Estância do Espinilho”
e por lá deixou um filho,
co’a filha do fazendeiro,
que por fim, seria herdeiro,
das patacas do caudilho.
Com o tempo, tudo muda,
até o sentido de ver.
Se a dor ensina a gemer,
não há mandinga que acuda.
Quando a consciência desgruda
dum interesse maior;
quem guarda a lição de cor,
sabe bem aonde vai;
o filho que honra o pai,
mantém Deus ao seu redor.
O tempo anda parado,
o mundo segue seu giro;
num repente, como um tiro
o guri, tinha chegado,
ao ponto de ser chamado,
pra inspeção e sentar praça.
Para a mãe, mais uma graça,
pro pai, motivo de orgulho;
para o avô, o mangrulho:
da desonra e da desgraça.
Agora, daqui pra frente,
o bastardo terá nome.
-A raiva, quando consome,
o bom senso dum vivente;
faz “de pronto”, o penitente,
dar vida a destemperança,
e o desejo de vingança,
começa a falar mais alto.
-Retorna num sobressalto,
o que não sai da lembrança.
O Nico, saiu do trilho
no desvio - de sua filha;
tinha invadido a família,
num descuido do caudilho.
-Mas, no retrato do filho,
enxergava o “domador”.
À sombra de seu horror,
mandou chamar um capanga;
pr’uma tocaia na sanga,
no final do “corredor”.
-Antenor, esse crinudo,
não pode ferir ninguém.
Depois, escolhe também,
um lugar, longe de tudo,
pra enterrar esse beiçudo,
que não consigo esquecer.
Somente quero te ver,
depois, do serviço feito.
- “Guaiaca cheia”, o preceito
pra compensar teu dever.
Veio a noite e foi embora,
veio a outra e também foi.
-O velho, escolheu um boi,
e mandou carnear na hora.
Mas, durante “o bota fora”,
o guri apareceu;
logo em seguida entendeu,
o que havia acontecido.
Será que o pai foi ferido,
tinha peleado, ou morreu?
Aqui, o primeiro grito
d’independência total.
Era homem, “sem buçal”
um taura qu’anda
solito;
não vê no pai, um proscrito,
nem um bandido qualquer.
Diga ao povo, o que quiser,
mas, coragem, não se aluga;
nenhum ventena, refuga
um carinho de mulher.
A mãe contou a
verdade,
que guardava a sete chaves,
pra retirar os entraves
em nome da lealdade.
O pai, pela
liberdade
“templou” a vida ao relento,
enfrentando chuva e vento,
geada, sol e mormaço.
venceu o tempo no braço,
pra garantir o sustento.
Porque será que o destino
põe pessoas em confronto,
num medonho desencontro;
de fazer perder o tino.
Onde a visão dum menino
à mão do Patrão Eterno
transforma o mundo moderno
num sistema mais antigo
fazendo frente ao perigo
em honra ao sangue paterno.
Nas patas dum zaino escuro
o longe se fez mais perto,
à noite de céu aberto,
um prenúncio de futuro.
Ao ver o pai em apuro,
veio o avô na lembrança,
em regozijo, a festança
comemorando a tocaia,
co’a morte cruzando a raia
num passo de contradança.
Na trança do ferro branco,
o Nico mostrou valor,
atropelou o Antenor,
que também não era manco,
e já no segundo arranco,
o Nico foi lastimado,
num talho de atravessado
de “rachá” o mundo no meio.
E no final do careio,
há um capanga degolado.
A estância ficou dispersa,
no sonho do bem querer;
o avô deixou de ser,
o princípio da conversa.
Ante a situação inversa,
o perdão e a indulgência;
trazem nova referência,
como medida de peso,
pra quem usou o desprezo