LÁ NO CAMINHO BONITO

Joseti Gomes

 

Grades não aprisionam

O soco da mão fechada

Que jura amor desse jeito!

No sangue quente da briga,

Corta, pisa… depois suplica...

Beija a face e fecha os olhos

Pra dormir no mesmo leito.

 

Assim começa o poema

De uma certa flor do campo

Que ornou um vaso na sala.

Foi musa de muitas linhas,

Também reinou na cozinha

E perfumou os lençóis

De um poeta que se cala.

 

Cala a voz e pesa a mão

Quebrando o vaso da flor,

Que rasga verso e vestido.

Levanta a mão escarlate

Que fere, marca e bate

Dentro do rancho barreado

Lá no "Caminho Bonito".

 

Maria, Tereza, Leontina

O nome da rapariga,

É coisa que ninguém lembra.

O que fica nos registros

São somente os apelidos...

"Uma tal de China Louca

Que abandonou a fazenda".

 

"A guria enlouqueceu

E partiu de madrugada

Em noite de temporal."

"China louca! Sem piedade!

Por conta da pouca idade,

Não soube honrar o marido.

Coitado do Juvenal!"

 

"Fugiu, por certo, com outro!"

"Foi vender alguns carinhos

Em troca de poucos pilas!"

"Se acaso seguir com sorte

Vai se encontrar co'a morte

Num brete sem testemunhas,

Num beco de alguma vila!"

 

Uma porteira se abre

No silêncio, das paredes,

Que dormem c'o Juvenal.

Cicatrizes na sacola,

E a musa se vai embora

Levando a vida enrolada

Num anúncio de jornal...

 

Estes causos, tão comuns,

São contados nos galpões,

Depois das lides do dia.

O campo bebe do orvalho,

Enquanto cinzas, do borralho,

Cobrem verdades e marcas

Que não cabem na poesia.

 

Muita sujeira se varre

Pra debaixo do tapete

Neste cenário campeiro...

Qual o sentido de um tema

Que não cabe num poema

Por ser urbano demais?

Talvez por ser verdadeiro...

 

Respeito um verso de campo

Com paisagens retratadas

Nestas imagens terrunhas.

Respeito se o verso é xucro,

E descreve esse gaúcho,

Que tem amor pelo pago

Com terra embaixo das unhas.

 

Respeito também as dores

De quem não foi retratada

Por não ter fama de herói.

Por não caber na paisagem…

Foi preciso ter coragem

Pra tingir a folha branca,

Co'a pena que mais me dói!

 

Era Maria o seu nome,

mas isso já não importa…

Teve seu corpo ferido...

Teve seu rosto marcado…

Teve o vestido lavado

E nunca mais retornou

Lá no "Caminho Bonito"...

 

A musa é sempre descrita

Dentro de rica moldura,

Com a face maquiada.

Do verso feito pra ela,

Voam tranças na janela

Enquanto queima na carne

A rosa desabrochada.

 

Aqui eu encerro o verso

Que não respeita o padrão

Da folha, em cima da mesa.

Seja no campo ou cidade,

Se o amor é de verdade

Ele não pode doer,

Disso eu tenho certeza!

 

A vida nova respira

No ventre de uma barriga

que lava pratos na pia…

O Poeta de bombachas

Ergue o copo de cachaça

Para brindar seu poema:

Primeiro lugar "POESIA".