JOÃO LONJURA
Matheus Costa
Nos olhos,
poeira e distância...
Na alma, restos
de adeus!...
Desta forma,
João Lonjura
rompia várzeas e tropas,
pelas tardes mormacentas
que o janeiro lhe anunciava...
Conhecedor dos
caminhos
- mais que do
próprio destino -
já nem contava nos dedos
as lembranças e segredos
que o fizeram peregrino
destes silêncios de andar!
João Lonjura...
Poncho judiado
das traças,
mas que era casca pra pele
e pra alma, contra o vento
das canhadas e taperas!
O mouro, um
eterno amigo,
com luas moldando os cascos
e marcas de mil estâncias,
agora era seu somente!
...E a razão de
andar em frente,
sem voltar d'onde cruzou!...
No coração, a pureza
destes fundos de invernada...
...da gente que
foi criada
sabendo aonde pisar!
Migalhas de
sonhos idos
na mala atada do tempo...
E algum
murmúrio de vento
que ele aprendeu a escutar!
João Lonjura...
"O peão de
tantos!"
...Serviçal da
Sanga Preta
e domador das Quatro Estradas!
...Quanta
alegria extraviada,
quanta tristeza contida
na velha muda da vida
que é dura e não vale nada!
Na cordeona, um vício largo!...
...de embriagar
madrugadas
nos fogões de hora e pico!
Muito embora,
aqueles dedos
(condenados pelas rédeas
e cabrestos mal torcidos)
não tivessem a destreza
musiqueira d'algum outro!
João Lonjura...
Distante mas
sempre perto
daquilo que lhe atraía:
O carteado, a pulperia,
o chinaredo, a cavalhada.
...- Já que a
vida vale nada,
da morte é que ele se ria!...
Cambichos, teve - por certo -
a perder-se, mundo à fora!
Retoçava e ia embora,
sem apego e nem saudade...
...sem carinho
e nem promessa!
...Até que numa
volteada,
seu olhar de mil estradas,
parou na figura clara,
delicada e tão serena
da Siá Doninha - chinita
-
...Das irmãs, a
mais bonita,
filha "d'um índio "Barreto"...
...sangue malo
e duvidoso
da querência onde vivia!
Esta lhe negou
o estrivo!...
E depois de
quase ano,
João Lonjura
estava só!
À míngua da
própria sombra
e da vasta desesperança
que um desamor traz ao peito
de quem sucumbe ao encanto
temporão e venenoso,
cancheiro de despedidas!
Então, virou "João
Ferida",
"João
Solidão", "João Lamento"!
...Mais um
adeus na memoria,
mais léguas pra ele seguir!...
João Lonjura, estava longe
do rincãozito e das "casa";...
Bebendo na
sanga rasa
da pobreza costumeira
nestes rumos estendidos.
Mas trazia,
junto à si,
uma cisma que era boa
e que nunca lhe deixou
gastar retrechos em vão!
...Era uma fé companheira
- crioula
intenção benzida -
que lhe ofertava guarida
pra cada naco de chão!
No corpo, os
golpes sofridos
que os andejos cedo levam,
enquanto acham na estrada
seus testemunhos sinceros
das horas lerdas e escuras,
até o que chamam de "fim"!
João Lonjura, foi assim...
Caminhador e
tropeiro;
Rumbeador e estradeiro;
Cristão puído,
e com marcas
que nem a idade consegue
botar na talha que têm!
Lonjura, porque
era rumo...
João, por
circunstâncias da alcunha!
...Era como um
verso escrito
que ninguém parou pra ler;
...Era um
exemplo à se ter,
destes que ainda acredito!
João Lonjura, andou distante
de família e de romance;
Jamais esteve
ao alcance
da fartura e da bonança
nas mesas dos estancieiros!
No corredor, um
paradeiro!...
No arreio, um
berço de ouro!...
E em cada tira
de couro,
um relato e uma façanha!
...João
Lonjura, o "João Campanha"
se chegava no povoado!
- Lá vai indo o
João, criado
longe de tudo e dos seus...
Mais um João
que se perdeu
entre o adeus e o caminho...
Mas jamais
ficou sozinho,
quando ele foi "João de Deus!"