Don Ignacio, guitarreiro
Danilo Kuhn
Acima do céu da pampa
existe um pago bendito,
sesmaria do infinito
onde o horizonte se acampa.
Em suas campinas amplas
vagam tropilhas de estrelas...
Não há cercas nem cancelas
nessa querência suspensa,
uma seara imensa
de esperanças e
quimeras.
Na celeste sesmaria,
sem capataz ou patrão,
a paz dorme no
galpão
quando a noite emponcha o dia.
A noturna melodia
que ecoa pelas matas
ganha acordes de prata
quando a lua tange o breu
e a madrugada, no
céu,
agradece, em serenata.
Don Ignacio, guitarreiro,
trastejava pela vida,
sina de corda puída,
alma de som e madeira.
Chotes, polcas e vaneiras
bailavam pelo salão
ao toque de suas
mãos,
mas dedilhava milongas
pra amadrinhar horas longas
de tristeza e
solidão.
No ponteio da saudade,
cada nota musical
fere feito um punhal.
Saudade não tem piedade
quando o passado invade
verso, estrofe e refrão.
A saudade é um bordão
que soa uma nota só
quando a solidão, sem dó,
bordoneia o coração.
Don Ignacio, guitarreiro,
em derradeira
canção,
abraçado ao violão,
da morte abriu as
porteiras.
Sua alma, além fronteiras,
vislumbrou um pago santo,
onde poesia e acalanto
pautavam o firmamento.
Em suas claves, o tempo
orquestrava lume e encanto.
No infinito, Don Ignacio
arpejou a própria vida,
página lida e relida...
sentiu o amor em seus braços,
presente em cada compasso,
contraponteando seus cortes.
O amor mora nos acordes
que vibram nas entrelinhas
quando a pauta amadrinha
a canção da nossa
sorte.
Acima do céu da pampa
existe um pago bendito,
sesmaria do infinito
onde o horizonte se acampa.
Em suas campinas amplas,
com cantigas na algibeira,
depois de uma vida inteira
tangendo cordas de espinho,
viu que há flores no caminho
Don Ignacio, guitarreiro.