Carrossel

Vitor Bielaski

Gira-gira da memória

De um tempo que hoje é distância

Carrossel de fantasia

Na magia da minha infância

Volteando e rangendo aos poucos

No velho armazém da estância...

 

Antigo baleiro encantado

Girando e girando sonhos

De merengues, caramelos,

Rapaduras e outros doces

Expostos pra gurizada

Nos muitos balcões de antanho.

 

Adentrando no bolicho

Era sempre o mesmo olhar

Buscando o baleiro antigo

Em seu ranger e voltear

E despertar o desejo

Da minha alma de piá.

 

Tinha de tudo um pouco

Na venda daquele amigo

Que hoje já é finado.

Com um jeitão meio brabo

Pra esconder o sorriso

Pois a fala só não era mansa

Quando sentia o perigo.

 

De corda até fumo em rama,

De pilha até urinol,

Fazenda, farinha e milho,

De Erva de mate até anzol,

Carretel para a pandorga,

Feijão e baralho espanhol.

 

Mas a dança do baleiro

Era só o que eu via na frente.

Cada doce mais doce!

Tanta coisa diferente!

Sete belo e puxa-puxa

Pra desmanchar entre os dentes.

 

A lembrança mais distante

É a do colo do avô

Batendo uns níqueis na mesa

E arrodeando o expositor

Mandando que eu escolhesse

O que mais me agradou.

 

Depois de crescer um pouco,

Já me achando “o mocito”

Cruzava a galope a picada

No lombo do meu petiço

Pois me sentia um adulto

Indo na venda solito.

 

Um dia, não lembro quando,

Nem quanto tempo já fez

Fui no bolicho depressa

Escolhi mais uns doces ou três

E acenei pra o bolicheiro

Pela derradeira vez.