Noé Cezar da Silva
O largo das sesmarias
Já não cabia nos olhos.
As cores tão conhecidas
E mesmo o verde dos mates,
Pareciam desbotados
Para as retinas cansadas
Que o tempo fora mermando.
Os olhos do João
Coruja
Tinham minguado co'a idade.
Os olhos que há muito tempo
Tinham lhe dado o apelido
-por merecido se diga-
Diziam que a luz dos olhos
Guardava brilhos de luas
Dos tantos quartos de ronda
Que a profissão lhe obrigara.
Que muitas vezes lhe viam
Varando noites inteiras
Em vigílias solitárias
Tal as corujas do campo.
Além do dito dos olhos,
Outro motivo do nome,
Era o costume que tinha.
De ficar sempre brincando
Em assovios afinados,
A imitar as corujas,
Parceiras das madrugadas
Os olhos que despertaram
Desejos e fantasias
Segundo o dito das moças
E que diziam serem sóis,
Pela luz que irradiavam,
Transformaram-se em cacimbas,
Daquelas abandonadas,
Que a poeira cobriu o brilho,
Tapadas de folhas mortas
Pois não carecem de uso.
Os olhos que se orgulhavam
De contemplar seu semblante
Refletido nos olhares
Das moças da redondeza,
Foram aos poucos refugando
Os espelhos das vidraças
Que por teimosas mostravam
A imagem desbotada
Que nada tinha de antanho.
Não viam mais refletidos
Desejos e fantasias,
Tampouco o brilho do sol
Que há muito o tempo apagara.
Por isso passava os dias
Na janela do galpão
No peitoril debruçado.
Ficava bombeando vultos
Que se mexiam lá
fora
Sem formas e sem
contornos.
Tampouco lembrava as cores
Do arvoredo das casas.
Cansado, só lhe restava
Ficar “escuitando”
ruídos
E atento a cada sonido
Ficava criando imagens
Do que lhe vinha aos ouvidos.
E cada qual mais bonita.
Na hora do lusco fusco
Quando os vultos se escondiam
No escuro do campo grande,
Abandonava seu posto.
Sentava junto ao brasedo .
Alimentava com pouco
O que restara do corpo.
Depois, no catre surrado,
Fechava os olhos cansados.
Ficava olhando pra dentro,
Pras memórias que juntara.
Destas sim lhes via
as formas
E os verdes com mil matizes.
Na rotina dos sozinhos,
Que custam empezar o sono,
Ficava sempre pensando
Sentenciando pra si mesmo
Que a vida sempre nos cobra
Aquilo que a gente faz.
Pagava o preço que a estrada
Sempre cobrou dos andantes.
Maula tributo
cobrado
Daqueles que por semanas
Levavam tropas alheias
Em direção do abate.
-“Quem culatreia por gosto/ aceita a
poeira nos olhos/
e quem carrega pro abate/ um gado que não tem culpa/,
um dia paga dobrado/ pela maldade que fez”.
Lembrava que muitas vezes,
Lá na culatra da tropa,
Ficara olhando o rastro
Das pisadas doloridas
Deixando marcas profundas.
Assinaturas de morte
Daqueles que, sem escolha,
Rumavam para um destino
Pelos homens sentenciado.
O capim, as flores vivas
Que enfeitavam corredores,
Emoldurando alambrados
Vergavam ao peso das patas,
Fazendo uma reverência
Àqueles mugidos tristes
Que lamentavam o destino.
E depois adormecia
No catre de seus recuerdos
Tapados de
pesadelos
Que sempre lhe
condenavam.
Foi então, que numa noite,
Depois da reza de sempre,
Pediu a Deus que lhe desse
O perdão benevolente
Pois já estava cansado
De carregar esta sina.
Fechou os olhos a espera
Que o sono lhe desse alento
Que os sonhos fossem amenos.
E o sonho veio bonito...
Viu-se de novo montado...
Ia tocando outra tropa
De um gadario muito manso,
Que se perdia de vista,
Como se ali estivesse
Reunidas todas as outras
Que rondou durante a vida.
Não escutava mugidos.
Não ecoavam os aboios
No verde das sesmarias
Nem assovios do ponteiro.
Nenhum estouro na tropa.
Nem rastros, nem cicatrizes
Na terra antes sofrida
Pelas patas doloridas.
O capim e as flores vivas
Desta vez não se curvavam.
No lugar das reverências
Um bailado muito suave
Como quem faz um aceno
Se despedindo pra sempre
Dos que vão pra nunca mais...
E o João seguia junto
Num assovio afinado
E aos poucos foram sumindo
Como se fossem chamados
Por uma luz muito forte
Lá no fim do corredor.
Quando o dia amanheceu
A janela do galpão
Não se abriu pro campo grande
Onde o João se debruçava.
Dizem que... Por muito tempo
Uma coruja do campo
Vinha pousar junto a ela.
Ficava piando insistente
Como quem fica chamando
Outro assovio afinado
Pra cantar em contraponto
Enquanto vultos passeavam
Dando vida e movimento,
Pra’o verde das sesmarias.