A CRUZ DE UM POBRE RURAL
Quantas vezes solitário, ao derredor
de um fogão
Quentura pra o coração, nas longas horas de espera
Vivendo em rancho ou tapera, no ocaso da existência
O posto virou querência, sem devaneio ou quimera.
Nascido em noite de lua, em terras do interior
Cresceu sem muito valor, o filho do serviçal
Sem educação formal, forjado na lida bruta
Desde cedo na labuta de algum trabalho braçal.
Tinha por nome João, sem saber do Evangelista
Muito menos do Batista, da fé de sua oração
Um crente sem comunhão, que nunca teve batismo
Foi sempre o seu catecismo: enxada, arado e facão.
Andou de estância em estância, caseiro e madrugador
Foi changueiro e domador, no velho ofício ancestral
Na primazia rural, foi um nômade campeiro
Peão de estância galponeiro, sem pouso certo
ou final.
Entre a fazenda e posto, invernada e o parador
O rude encontrou o amor, nesses carinhos de china
Nas polcas de relancina, nalgum rodeio ou carreira
Romances de vida inteira, temperança campesina,
Tudo ficou na retina, e em verdade, solidão
Quisera em contra razão, construir amor e ninho
Pois até um passarinho, tem um galho pra pousar
Mas João a esperar, ficou a viver sozinho.
Certa feita, o patrãozinho, boquirroto e deslumbrado
Gritou com o índio oitavado, lhe chamando a atenção
Como pode um fanfarrão, que é rico por ser herdeiro
Destratar um companheiro, assim no más, meu
irmão?
Mala nos tentos se foi, campeando outra paragem
O nomadismo é viagem, êxodo pampa e rural
O universo material da pobreza por estilo
O campo lhe deu asilo, em seu viver invernal.
Bota, bombacha e chapéu, legados do inventário
Deixou pelo vizindário, lições de sabedoria
Gauchesca teimosia, dos que insistem em viver
Remendando algum saber, da xucra filosofia.
De que valeu o destino, do pobre que trabalhou?
Das agruras que passou, em seu viver
franciscano?
O ideário soberano, legado de tua pobreza
Fez verdadeira nobreza, no panteão americano.
E já no fim da jornada, o gaudério compreendeu
E na morte, renasceu, para gáudio atemporal
E o velho peão mensual, que passa a vida lutando
Por mil caminhos vagando, encontra a morte afinal.
Forjado a ferro e fogo, no regime pastoril
Brutalidade viril da velha escola ancestral
A Tricolor Imortal tremula ao vento minuano
Demarca em solo pampeano, a Cruz do Pobre
Rural!