SEMENTE DE CAMPO E FLOR

Luís César Soares

Uma tropilha lubuna esbarrou no céu,
Rugindo, fazendo estrondo e escarcéu;
Manhosa, desaguou-se em pranto,
Chorando, chorando por todo o campo...

No início, chuva mansinha pra apagar pó,
Depois foi enxurrada de afogar beirais,

Foi artilharia cerrada, tiroteio no zinco,

Foi chuvarada ... Aguaceiro de dar dó...

Mas hoje cedito ao bombear horizonte
Vi tímidos raios de sol atrás dos montes,

Vi as lágrimas desprendidas da enchente
Maturando ao tempo, virando semente...

Foi ali, na várzea, de grama molhada,

Que vi nascer alvorada sufocando a dor...
Vi o poder da fé romper a pedra vazia,

Para brotar poesia em forma de flor...

Foi brasa viva que caiu no chão,

Estrelas cadentes, queimando pasto,
Esperança para as almas
andarilhas
Que levam o destino de arrasto ...

No campo o aroma dos pessegueiros,
Floradas invadindo palhoças e choupanas,
Terno feitiço seduzindo abelhas e camotins


Em doces lábios pro beijo das lechiguanas.

Vi que o dia abriu porta e janela

Para receber a moça mais bela,

Inspiração colorida e perfumada,

Alma menina vestida de primavera.

Estação para um trem de rosas,

Trem de flor que chega onze horas,

Chega pesado sobre trilhos e dormentes,
Trazendo no ventre, o fruto e a semente...

Vi um luzeiro brotar no jasmim

Tinta viva colorindo aquarela;

Ouvi o beija-flor trinar no jardim,

E compreendi: a vida não tem fim!

Nós somos a própria semente,

Talhados em carne e osso,

Somos tijolos, todos iguais,

Feitos de barro, filhos do mesmo Pai.

Cada um tem “lá” suas vontades,

O livre arbítrio é direito do povo,

Por isso, uns buscam a sua metade,

E outros, outros querem voltar de novo.

Eu quero garganta com o dom do canto

E longas asas para cruzar os campos...

Quero ser forno e fogão, de brasa e calor

Para aquecer o pão do Martim-Pescador...

 

Quero ser semente de campo e de flor,

Quero ser favo do mais tenro mel,

Quero ser arado rompendo a serra para
Brotar na terra e ir de encontro, ao céu...!