ROMANCE DE QUEM MOLDOU A QUERÊNCIA

Sebastião Teixeira Corrêa

 

A linha tênue que aparta

A razão de homem campeiro

Das raias do desvario

Não suportou a injustiça

E arrebentou no limite

Da sentença feito espada,

A transpassar peito e alma

golpeando os sonhos do João

 

Capataz da estância velha,

Perdeu a noção dos anos

Que deixou de ser posteiro

Pra se tomar capataz;

Nasceu e cresceu na estância,

Conhecia como poucos

Cada palmo, cada canto,

Cada pasto, cada aguada,

Cada árvore plantada

Ou nativa do lugar

 

Fez de seu posto seu mundo,

Ergueu rancho, fez morada,

 “Embuçalou” a trigueira

Mais bonita das percantas,

Que ao raio de algumas léguas

Poder se ia encontrar

 

Sonhou nas noites compridas

Que a força daqueles braços,

Curtidos por tironaços,

Um dia, talvez distante,

Lhe dariam, por regalo,

Um rancho pra ser só seu

Frente quinchada pra o Norte

Com pé direito bem alto,

Varanda no comprimento,

Terreiro largo pros piás;

Um pedacito de campo

Pois não carecia tanto,

Apenas o necessário

Pra alguma nesga de vida

Que haveria de sobrar

 

Os piás iriam pra o povo

 -É preciso ter escola –

E algum dia, sem retovo,

Quem sabe vestir estola...

Se perdia nos seus sonhos

Construindo fantasias,

Sabia de um outro mundo

Muito além das cercanias

 

De posteiro à capataz,

Foi o tempo do patrão

Reconhecer o talento

E a honestidade do joão

 

Tostou a cara nas lidas

E entordilhou as melenas,

Dependurou as chilenas

Pois garrou pena dos bichos,

Coração de pedra bruta

Aos poucos amolecendo

Ao ver os netos crescendo

Pelas estâncias vizinhas,

Porque os filhos que ele tinha

Herdaram sorte de peão,

E nesse mundo campeiro

Muito bem ele sabia,

Quando acaba a serventia

A vida dá seu tirão

 

A sentença proferida

Naquela tarde cinzenta,

Desabou como tormenta

Sobre um castelo de areia,

E o mar revolto por dentro

Inundou todo seu mundo,

Dos olhos, duas vertentes

Deram vazão pra uma enchente

Que se formou num segundo

 

“Preciso que desocupes de vez

O rancho onde moras

Pois deverás ir embora

Porque hoje os tempos mudaram

Vou trazer gente estudada

Pra ocupar o teu lugar;

Como estás velho, João

Tens pouca vitalidade

Quem sabe lá na cidade

Vais viver melhor, então”.

 

Quedou-se mudo e os olhos

Ficaram mirando a esmo

Como a campear por si mesmo

Nos ermos da velha estância,

A vida perde a importância

Quando a injustiça mesquinha

Por madrasta e por daninha

Rouba os sonhos e a esperança

No outro dia, cedito

Um carro de bois seguia

Rumo à estrada real;

Levava um João já sem vida,

Uma história resumida

No humilde do funeral...

 

...E à noite, passando em frente

De um potreirito de pedras

Onde medram toscas cruzes,

Apeio e saco o sombreiro

Pedindo a Deus que aos campeiros

Olhe sempre com clemência,

Pois somente a Onipotência

De um Deus que a tudo criou

Saberá dar o valor

A quem moldou a querência

 

Quando recolho minhas vistas

Pra contemplar a cidade,

Me dói a realidade

Dos arrabaldes povoeiros,

Hoje há tantos João campeiros

Que, posteiros ou capataz,

Deixaram a vida pra traz

E se embretaram nas Vilas;

Das changas, míseros pilas

E do campo ... um nunca mais!!!