OFÍCIO DE CARPIDEIRA

Joseti Gomes

Quem de vós pode entender
o rio que nasce e escorre
em ladainhas cantadas
sem nascente, sem vertente?

Quem de vós empresta os olhos
que secam pelas vigílias,
testemunhando rosários
de tristezas confessadas,
num lamento murmurado
que não escorre na face,
que se agiganta sentido
num verdadeiro motivo
de chorar a dor alheia?

Num rancho beira de estrada...
Na casa grande da estância...
Nas vilas do povoado ou
na capela do vigário...

De preto, todas reunidas...

Em choro... Em ladainhas...

Em pé, ao rosário, contritas...

De mãos vazias partimos,
solitos, das casas que
não emprestam candeeiros
pra iluminar a estrada
que não permite voltar...

As almas cegas,

confusas  se vão...

nada se sabe do além...

e os rumores, multiplicados,

rezam a prevenção...

 

Ninguém cumpre esse ofício

de rezar ou, de chorar

com tal fervor,

com tal sentido de dor!

As almas pedem por luz

em sua hora derradeira

e ninguém melhor entende

de acompanhar quem se vai,

do que as mulheres sofridas

chamadas de “carpideiras”!

 

Estão sempre nos velórios,

ninguém sabe de onde vêm...

Choram um choro doído,

fazem de um jeito sentido

como se fossem da casa...

Como se fossem parentes...

E enquanto se vela o finado,

elas ficam ali, do lado

chorando incessantemente.

 

Elas não mostram cansaço

não cochilam pelos cantos...

Choram contidas ou em prantos

intercalando qual ato...

Se interpretam de fato

quem de vós irá julgar?

A dor da parda se esconde

nos labirintos do olhar...

 

Choradeiras de aluguel...

Carpideiras  de velórios...

elas assim são chamadas...

Mas olhem! Olhem direito!

Possuem chagas no peito!

Um filho partiu pra guerra...

O marido foi levado

Pela enchente do Uruguai...

A filha, um malino roubou e,

dizem que a abandonou

nas profundezas das águas...

 

Olhem! Olhem bem!

Existem sulcos na face!

Trincou a terra do rosto

pela ausência do rio...

Pela ausência do “corpo”

de quem partiu sem voltar,

para ser velado por elas,

no último sono do adeus...

 

Olhem bem! Elas choram!

Choram o choro alheio...

Choram por quem não veio!

 

As mulheres choradeiras

rezam pedindo luz

para alma que se despede

iniciando outra viajem

agora, rumo ao além...

Logo vai ser plantado

na estéril cama macia....

No mesmo chão que não brota,

Pois, se enterrar semente morta,

a terra morre também...            

 

E os parentes vão chegando...

Amigos e, outros curiosos...

Elas com a mesma expressão,

seguem nessa missão

de velar a dor alheia...

Rezam, cantam e choram...

Choram, pois isso fazem tão bem...

Numa vida empobrecida

e sem mais nada a restar

puseram-se, então, a chorar,

chorar a dor das partidas...