FUGA
Joseti
Gomes
Sinto
que é chegada a hora.
Canto
em versos minha voz,
que guardei nas grutas
escuras
e, agora, deixo-a
fugir sem pena
e, sem medo... é chegada a hora...
Dispo-me
dos ventos de agouro...
Visto-me
dos berros e uivos
dos que campearam
pastos,
pra matar a fome de
safras
e colheitas fartas,
que quase perderam-se na
seca...
Entrego-me
às mãos vazias
que se estendem
a pedir ou dar
clemência...
A
mostrar os calos, das enxadas
que reviraram a terra,
buscando
raízes enterradas
e obscuras, no amargo
das fomes escondidas...
Rasgo-me
na falta da seiva
que envernizou os
caules,
dos braços abertos a
orar,
sem saber que a reza
não garantiria o fruto,
por saber florida a
estação das cores.
Volto-me pro cerme...
Curando a ferida viva,
estanco a lágrima que verte,
escarlate e úmida,
na face murcha e muda
das figueiras tristes,
de copadas magras...
Despeço-me dos verdes
e dos capões antigos...
Que muito abrigaram as fugas
de calçados parcos.
E, garantiram fogo
pros fogões gulosos
que queimaram noites
e fritaram dias,
pra que a madrugada
descansasse muda,
as barrigas cheias.
Perdoo-me dos anos...
Enterro os restos
dos verões em festa,
onde dancei sorrindo
com a bem amada...
Onde plantei sementes
numa terra virgem
que gerou meus filhos,
e os fez escravos
dessa nova crença
de buscar estradas...
Prometo-me distâncias...
Esperei contrito e
agora,
vejo que o que mais queria
azedou-se ao leite
que, fundindo em queijo,
foi salgar o soro
que entreguei aos porcos..
Reviro-me na cela...
Nesta prisão de nomes
que registram posses
e carimbam dotes...
Sou mais um rebelde!
Não saí aos meus...
Pois neguei galões
aos que voltavam firmes
das revoltas mortas
de um lutar em vão...
É chegada a hora...
Antes que se faça
tarde,
pegarei o rumo
dessa estrada longa
e serei poeira
numa nuvem densa...
Chegarei mais cedo!
E serei mais um
a cantar poesia
num céu enfeitado
de poetas loucos!