EPIFANIA
Caine Teixeira Garcia
Confessei-me em silêncio
...a lua,
ouvindo minhas preces.
Repontei quimeras, ao vento
- Quem sonha, não adormece!
E a noite soube que o sonho
É um flete de perdas e ganhos
Que a freio nenhum obedece...
Sonhei bem além das estâncias ....
dos calos impressos nas mãos!
Em quarto crescente, as ânsias
Partejavam luz na escuridão...
Em sete cordas, assobiava
Um minuano - de alma gelada
...me deu
saudades do galpão...
Último olhar às rodas de carreta
Que enfeitavam a propriedade...
Sem eixo, junta ou parelha
Tão apartadas... na saudade!
Quem já repontou progresso
Morreu, para ser o endereço
E “dar vida” à “modernidade”...
Cruzei a porteira em silêncio
Pondo a alma no corredor...
Meu zaino, atirando o freio
- de tiro, um mouro, escarceadorl
Enrolei a preceito, um palheiro
E enquanto rangiam os arreios
Rumbiei, ruminando minha dor.
Com
a lua engarupada
A noite era um sonho - e mais nada
Serenando no tirador....
Sonhei muito além das
estradas
- horizontes de imensidão
E ao ver a vida empoeirada
Nas
estrelas dos “garrão”,
O vento tiniu as rosetas
Fazendo tremer as baetas
Do meu poncho-solidão
...pois duas rodas de carreta
Enfeitavam a propriedade ...
... parti, uma dor, de jugo e
maneia
De tiro, o mouro ... e a saudade!
Um tropeiro de tantas tropas
Se foi, repontando as sobras
De um coração em metade...
Singrei rincões em silêncio
... e a lua sabendo os motivos
Os sonhos pingando no lenço
- De um jeito meio furtivo
O fizeram mais vermelho
Quase me pondo de joelhos
E dos pensamentos, cativo ...
A lua segredou à boieira
Que minhas lágrimas
fronteiras
Salgaram pampa e motivos...
Sonhei
com o que já possuía
-
mas que a razão renegava!
Fechei meus olhos pra o dia
Que a vida me entregava...
Restaram em meus peçuelos
O negro dos fios de cabelo
Num lencinho que ela usava...
E
as duas rodas de carreta
Ficaram, então, no passado...
Mas
ainda guardo, morena
Teus doces beijos - roubados!
O
amor não poderia vingar...
Quem não se apega a um lugar
Talvez não deva ser amado...
O
tempo, por maula e ligeiro
Levou meus dias pela mão ..,
De
quando em vez, ainda penso
Em dar de rédeas àquele chão
Mas com a noite me aconselho:
Sou
somente um peão velho?
E ela amanhece, sem dizer
não...
Será que a lua - que me acompanha
Ainda ilumina, nestas campanhas
A outra metade do meu coração?
E
a alma lamenta a resposta
Na epifania, em verdade exposta
Pra quem só ouviu a razão ...