CANTO DE AUSÊNCIAS

Jurema Chaves

Cansou de chorar ausências

Por isso volta ao rio grande.

Já emalou seus pertences

O pouco que ainda guardara

Pra pegar o primeiro trem

Na estação da saudade

E buscar essas lonjuras

Que lhe ficaram no olhar!

 

Precisava voltar! Já fazia tanto tempo,

Que se perdera nos caminhos,

Nessas andanças estranhas...

Querendo alcançar, talvez, no horizonte.

Sonhos que nunca encontrou.

a distância crescendo, multiplicando a saudade,

- Que fez morada em seu peito

Pois quem nasceu no rio grande

Não se acostuma a viver outros costumes diversos

Vivendo a esmo, disperso, perdido dentro de si.

 

Quer voltar, rever os campos

Bordados de pirilampos...

Voltar pra junto dos seus!

Sorver um mate a preceito, aquecer o frio do peito

Junto a um fogo de chão.

Abraçar sua guitarra que mergulha

Num gemido de aflita solidão.

Como um coração cansado, pedindo colo e abrigo...

 

Sim, precisa voltar depressa, pois o tempo não espera

O tempo vive a voar, quanto mais passar o tempo

Mais tempo passa a ficar.

Só faz crescer dentro dele essa essência dolorida

Como quem perdeu na vida, tudo que a vida lhe dera.

 

Precisa do seu cavalo, das suas pilchas de taura,

Domar um potro bem xucro,

Pisar o solo gaúcho, e sentir-se vivo outra vez!

 

Ah, ele precisava  tanto voltar!

Buscar o coração que lhe ficou

Num par de olhos morenos...

Repisar relva e sereno nos campos verdes do sul...

Vem cabresteando as lembranças, dolorido de distâncias

Que já não lhe cabem no peito

E, se derramam no olhar!

 

Ouve o apito do trem na estação dos recuerdos

E precisa se apressar - quem sabe é o último trem!

O outro vai demorar. Ou, quem sabe, nem virá.

O coração corcoveia num cruel desassossego

- Porque deixou sua terra, e essa demora em voltar?

Nem ele sabe as respostas.

Pois a vida é uma aposta: quem sabe quem ganhará...

Mas ele, ele só quer voltar!

 

Para descansar as retinas gastas, indormidas

De varar as madrugadas,

Sonhando com os acordes da guitarra,

Com as charlas noite adentro no galpão...

Andou, andou sem destino a buscar lonjuras

- que se perdeu,

Entre chegada, e, partida.

Como quem trilhou um labirinto...

Enfrenando o potro xucro de seus sonhos,

Galopando o tempo que chamou de vida!

 

Tanto foi, tanto ficou, que se perdeu...

Quando se encontrou - bem mais perdido!

Tanto se partiu, se endividou, se dividiu

Que nem sabe se morreu, ou se vive ainda

Lembranças que se agrandam sempre mais...

Barrulhando seus silêncios,

 

Queria, como último pedido,

Que o tempo lhe ouvisse um só segundo,

Que lhe pudesse dar essa alegria:

De pisar seus verdes campos novamente

Sorver um mate e adoçar o amargo,

- dessas ausências que guardou em si!