UM OLHAR ANTIGO

Jurema Chaves e Negro Jaru

E o sentimento que escreve, palavras tortas no más...

Palavras bem lá de trás, um tempo de cosas buenas

 De madrugadas serenas em que as cambonas chiavam

E os galos inda acordavam,melodias pelas casas,

Os guardiões abriam asas, de sentinelas na pampa

Arreios mantinham a estampa, de galpão, junto a um borralho

Lá fora o meu pingo, um raio ,numa carreira de campo!

E neste Universo é que acampo quando a saudade maleva

Quer resgatar-me das trevas do gelado apartamento

Gineteio os pensamentos, com fúrias de temporais!

 

Que tempos bons gauchada, que o tempo arrastou consigo

No sonho buscando abrigo, quando a saudade inclemente

Crava na alma do vivente esporas bem afiada

Rondando insônias cansadas, trazendo velhos fantasmas

Pra barulhar no silêncio que me ronda as madrugadas...

 

Olhando assim esse quarto, no alto de um edifício

Tão diferente do rancho, que foi morada e refúgio

Pras tantas chuvas e estios.

Tudo parece vazio, sem campos pra verdejar!

A lua fica distante, me olha sobre um mirante

Que fica perto do mar!

 

As ondas quebram na praia, se debatem no rochedo

Quebra o vidro dos meus olhos, pra saudade gotejar!

Na cuia um mate lavado, representando o passado

Que sequer posso esquecer,

Troquei a terra e os potros, o arado e a enxada,

Pra revirar madrugadas nesse solo de concreto...

 

Aqui distante eu descubro que minha alma de campo,

Não tem mais campos pra andar,

Apenas calçadas frias...

 

Até a estrela Dalva me ficou tão mais distante

Que não a consigo encontrar

Não mais o calor do pala, não mais o fogo de chão

Não mais parceiros pro amargo numa charla de galpão

 

Vou cabresteiando as lembranças nesse brete de cimento

Que agora me aprisionei,

Buscando rastros na poeira, uma cancela quebrada,

Que sem querer a fechei, numa tarde mormacenta,

Quando deixei o meu rancho, cruzando a estrada real,

Pra habitar o vazio, de um quarto todo gradeado

E como um bicho encurralado, ruminando noite adentro.

 

Busco o azul do meu céu e nada vejo,

Só lumes falsificados

Rebrilham pelas vitrines seduzindo o ser humano,

Com sua força ilusória, vai mudando a trajetória

De rudes homens campeiros,

Que se perdem sem luzeiros, sem sonhos sem ideais

Puxando a própria carroça, pra o pão de cada dia!

 

Que tristeza ver o mundo, nessa janela embaçada

Nesse silencio ruidoso que pisoteia meu peito,

Com a força de um potro xucro, sem maneias sem buçal

Apenas pisa, escarceia, tripudia, sapateia

No que restou de um gaúcho, que se perdeu nas esquinas

Nessas mazelas da vida.

 

Numa ânsia desesperada de encontrar,

Resquícios de minha gente,

Eu dou de mão num radio velho

Das poucas relíquias que me vieram na mala,

Além das já retratadas...

E junto do meu radinho, vou campeando uma estação,

Que me traga nesta noite, um vocabulário de gente nossa

Não precisa ser de roça, mas que não seja estrangeiro!

Pois veja, sou brasileiro, e não compreendo este inglês

Não rima com os meus apêros esta linguagem de louco

Que domina pouco a pouco, e, nos tomando de vez.

 

A lembrança da mãe velha me vem em tom de retruco:

- Meu radio ficou maluco? Já não traz meu tempo antigo!

E eu lhes digo meus amigos, já não sei mais quantas luas

Que escuto a mesma canção!

 

Nestes meus olhos antigos, que foram serra e fronteira!

Que foram a várzea parceira, pra o gado e pingos de lei

Que foram tantos de amigos!

Que nunca foram sozinhos, em tempo algum nesta vida

Que foram fandango e lida!

 

Olhos que foram rodeios, também vararam invernos

Empunhando ventanias!

Foram milonga e poesia

Nas voltas de um mate Bueno!

 

Digam-me o que fazer deste olhar antigo

Que não enxergam futuro.

Que retratam dolorido um tempo que se perdeu!

Que foram mãos estendidas

Que foram oferta e guarida a tantos índios andejos,

Estes meus olhos antigos, foram amores, regalos

Foram paixões por cavalos, desde meus tempos de piá,

Estes meus olhos antigos, que, desbotam pouco a pouco

Confrontando em dias loucos, cor de sangue à céu azul

Estes meus olhos antigos, que foram rancho e encilha

Serenando nas flechilhas, dos campos verdes do sul!

 

Se ao menos estas lembranças calassem minhas perguntas

Não acordassem a saudade que vive a me atormentar!

Talvez num dia abençoado, eu me quedasse estafado

De tantas cheias no olhar!

Quem sabe um dia, eu descubra nesta procura infinita

Que em meu olhar se reflita, o verde dos pastiçais

E busque o rumo dos campos, um sol-pôr azulecido

Meu olhar entardecido

Encontre o rumo, pra voltar!