UMA CORRENTE CHORA
Bianca Bergmam e Carlos Omar Villela Gomes
Uma corrente chora a dor de seus fantasmas,
Na dor da morte, a eternidade a lhe assombrar;
Aprisionada por si mesma ela soluça
Prantos ocultos pelos uivos do lugar.
Tantas matilhas assombradas retoçando,
Tantos lamentos divagando tanta dor...
Uma corrente chora junto aos seus fantasmas,
Cada momento de um viver assustador.
Quis ser um elo de esperança, encantamento,
Sonhou ser força de ancorar embarcação,
Porém, num tempo de grilhões e de calvários
Foi ela o ferro a tinir na escravidão.
Uma corrente chora, soluçante,
Um destino que não quis, que não pediu;
Um destino de ser contra a liberdade,
A serviço de rancor e desvario.
Uma corrente chora a dor de seus fantasmas,
Em sua alma tão nublada, em rebeldia!
Em cada elo uma história mal contada;
Em cada volta uma lágrima vazia;
Em cada dia um destino e sua desgraça...
Uma corrente chora a dor de seus fantasmas
Aprisionados por cadeados de agonia.
Uma corrente chora...
Cada elo... paralelo...
Anti-sinuelo do bem!
Foi a garra das masmorras
Debruçadas nos castelos...
O oposto do que é belo
Numa terra de ninguém!
Corrente, ferro fundido...
Corrente, alma maneada;
Triste traste, instrumento
De uma vida acorrentada!
Mas ela não quis assim...
Foi apenas o que a vida
Relegou para seu fim.
Uma corrente chora a dor de seus fantasmas,
Mas aos fantasmas não agrada o seu penar.
Porque entendem que na força dos seus elos,
Existe a alma da corrente que sonhava
E assim perdoam quem não quis lhes machucar.
Pois a corrente, que prendeu por tantos anos,
Nunca abraçou sua triste sina de prisão;
Queria ser, junto a seus elos, paz e união,
Não instrumento da maldade dos humanos!
Uma corrente não tem mãos sobre os cadeados...
Nem mesmo a voz que sentenciou condenação;
Uma corrente só obedece os seus mandados
E depois chora, suas lágrimas de Não!
Às vezes somos correntes
Com tão belas intenções;
Queremos ser liberdade,
Elos de tantas uniões...
Mas sem querer, pela vida
Nos unimos aos grilhões!
Junto ao choro da corrente,
Choramos nossas missões!
Por isso a corrente chora
E suas lágrimas revoam!
A corrente não implora,
Por mais que as lembranças doam;
Mas quando a corrente chora
Os seus fantasmas perdoam!