TODO UM CONJUNTO DE MORTES
Guilherme Araujo Collares
E se sabia que o “Anjo”
não ia durar pra sempre...
Como a árvore sem frutos
que vergou sobre si mesma
e, anterior a si própria, permaneceu...
e se fundiu com as sombras.
Em outros tempos teria sido semente...
Mas não em nosso tempo!...
Hoje, retornou ao nada...
pura ausência e solidão....
Teria que ser quando andava na estrada,
tropeando a volta de andar caminhos
com a desculpa de conduzir gado ajeno
de um lado pra outro...
senhor de si...
Melhor ainda seria quando das “pegas-de-potro”
em que arriscava o pelego por patacoada nomás...
Que de ginete tinha apenas a coragem
e um total desprendimento de cuidado com si próprio.
Ou quando tomava um trago
e a canha fazia vezes
de cambiar o que era manso
em prenúncio de tormenta...
E o ferro branco cruzado
plantava mais algum talho
no cercado dos recuerdos
pra nascer em cicatriz.
Teria sido melhor
se junto ao único irmão – Honorato...
que ficou quieto, apertado,
no estouro de uma rodada,
embaixo de um mouro-pampa
na Estância da Lechiguana.
Um pouco se foi também
quando afinal percebeu
que não dava mais na “radia”
os “aviso” pra campanha,
logo após o meio-dia...
Que diz que foi o tal celular que terminou...
Daí em diante não mais se situou no tempo.
Mais um pedaço se foi
quando arrendaram pra soja
a Estância do Camaquã...
Lá nasceu e se criou!...
E conhecia esses campos
melhor que cada sinal
que possuía na pele...
Não encontrou mais os passos,
muito menos as picadas,
que foram volatizadas
pelos tratores de esteira,
que não poupam nem os matos
pobremente defendidos
por cipós e japecangas
e quartéis de unhas-de-gato.
Se perdeu mais uma parte
quando foi alçar a perna
e não montou a cavalo...
Porque um tombo - quando novo -
“lunanqueou” a perna esquerda...
E agora, depois da idade,
o diabo cobrou a conta.
Se foi a última ponta
quando amanheceu o dia
encarcerando o horizonte
na moldura da janela
de um ranchito de arrabalde,
lá pelo Passo das Pedras.
Sem sentir os descampados
ou a poeira das estradas,
com as penas extraviadas
numa coplita assoviada
de um trotezito rimado...
Todo um conjunto de mortes
que se juntaram em uma...
Toda uma ausência de sonhos
que virou imensidão...
Mais um que se foi num tempo
perdido de outros tempos...
E que morreu de saudade
mesclada com solidão.