RECOMEÇO DE UM GINETE
Loresoni Barbosa
Um par de esporas e um manguito debochado,
Um santo sob o sombreiro - por vezes mui preocupado –
De prata a rastra oriental reluz no seu tirador,
E dois cavalos de muda garantem o estradeador.
Carrega lutos e golpes da vida já desnorteada,
O corpo suporta as dores, a alma o vazio da estrada,
O andejar não é por gosto, tem seus motivos e fatos,
E aporreados de renome, relincham nos seus retratos.
Saudade! Coisas do peito pra dentro - sortilégio apenas! -
Não pinta prata na mesa, nem tiro o frio dos poemas,
Não se plantam sentimentos, tão pouco amor nas calçadas,
E não se domam lamentos nem com esporas travadas.
Destemido! Eternizado nos versos de martin fierro,
Homem de campo e cavalo e sotaque de fronteiro,
Destorcido na payada e na guitarra um doutor,
Não sei porque tantas ganas de ainda ser domador.
Um dia fiquei sabendo dos lamentos a razão,
O desapego pra vida e as coisas do coração,
Tivera filho e mulher, gado e campo bem cuidados,
Tropilhas de um pêlo só, sonho e galpão bem quinchados.
São retratos do passado, lembranças - rancho tapera -
A saudade se fez presente e ele esqueceu quem era,
Largou o corpo no mundo e a alma ficou à espera,
- se a vida é em branco e preto, pouco importa a primavera. -
Determinou-se o gaúcho, - acabou a judiaria! -
Viver por viver somente ou honrar a morte fria?
Assim propôs a si mesmo: se é p’ra ser desse jeito,
Que ao menos seja à cavalo - te falo,que lindo fim! -
Se foram sonhos futuros, desse taura desgraçado.
Que só enxergava motivos para andar mal montado,
Se foi o homem e a estância, como se foi a parelha,
Apagou-se todo o brio daquele que foi centelha!
E ganhou novo destino; morada pelas estradas,
Loucaço meio teatino - paladino das palavras -
Inocência de menino - coragem dos espartanos -
- pra perder só tinha a vida, sem filhos, mulher nem planos.
Mas a orfandade da vida, pariu um novo ginete,
De tanto querer não ser, se viu o de melhor “suerte”,
E a história que lhe fez conto, também lhe fez cantador,
E abriu o peito cerrado pra receber novo amor.
É assim que age o tempo,
Sem tempo pra judiaria.
Quando o amor fala mais alto
A tristeza silencia,
Pra ouvir a canção dos filhos
E o mate que se anuncia.
Servido por mãos de fada.
- é a vida que principia!... -