PRA SEPULTAR UMA ALMA

Alcindo Neckel

 


A alma se eterniza

além do corpo da gente!...

Feridas de tresontonte

o mate não cicatriza!...

... lembranças são ternuras

nos retratos multicores

que eternizam primores

na solidão das gravuras.

 

A mera recordação

de memórias revividas

são velhas almas perdidas

na sombra do casarão!

... o assoalho manchado

singrando qual cicatrizes

de lágrimas que o beijaram

na solidão dos matizes.

 

O estigma é invisível

aos olhares de outros...

No desfazer dos encontros

 de um amor indelével...!

... se a marca não aparece

vago por águas atoas

destes meus olhos, lagoas

numa dor que me aborrece!

 

A mesa!.. quatro lugares

na cozinha já sem graça....

assombra a calma dos ares!

... a vida diz que ameniza

as feridas mais doloridas.

Mas, sobre dores e partidas

nem o tempo cicatriza.

 

Já fui um potro sem dono

a galopar pela noite...

Me tornei um boitatá

depois da luz do poente...

Hoje, diabos inquietos

tenteiam nos arredores

e assistem dos bastidores

meus fracassados dialetos!

 

Entre o corredor e a escada

as conclusões martirizam...

Uma capelinha de orações

que não concretizaram

ignotas intenções.

... a solidão me consome

ao buscar por alimento

e a alma não mata a fome

pra saciar cada momento!

 

A alma não cicatriza...

O tempo zomba de mim...

Qual um laço doze braças

que me pealou mesmo assim...!

As tormentas já passadas

se transcendem por horrendas

preludiando por meu fim...!

 

Perambulo em desatino

na clausura da mansão,

já sepultei meu destino

nas trevas da solidão...!

... não adianta à matéria

do corpo que me conduz

se a alma carrega a cruz

no meu calvário sem glória!

 

Os degraus da velha escada

e os corredores estreitos...

Que já foram transitadas

por vagos sonhos desfeitos...!

... uma aranha teceu a teia

a perturbar meus trajetos...

- desvio dela, no ir e vir!...

Só que passou por apertos

e aprisiona sentimentos,

sabe, a dor de se reconstruir!

 

O quarto guarda memórias

 por entre destinos vagos

e suas distintas histórias

revivem ternos afagos...!

... teu vulto se fez distante

no meu catre de pureza

 redesenhando a clareza

pra um coração vacilante.

 

Ah... se o casarão tivesse torre

exibiria minha cruz

na arquitetura que induz

o formato do meu túmulo...!

... pra sepultar uma alma

que já morreu por amor

restou um corpo vazio

num mundo desolador!