DE BARRO MOLDEI MEU VERSO
Marcelo D’avila
De barro moldei meu verso:
Do mesmo barro pisado
Pelos caminhos das tropas,
Sovado de pata e casco
Pelos fundões da campanha
No rumo incerto das grotas.
Do mesmo barro vermelho
Com que se ergueram paredes
De catedrais missioneiras
Quando o sonido de inúbias
Reverberava nos campos
Chamando a raça guerreira.
Meu verso, por rude e simples,
Foi forjado nas barrancas
Com templa de areia e rio.
É mescla da água da chuva
Com a terra seca e judiada
Depois dos meses de estio.
Tem a justa natureza
Da argila à qual mãos zelosas
Dão mil formas diferentes:
Em sua mudança constante
Tem fúria de correnteza
E a calma paz das vertentes.
No solo fértil da arte
Florescem rimas terrunhas
Por onde o poema lavra
E o barro macio do verbo
Torna-se sólido verso
Na olaria da palavra.
Ao modo do João Barreiro
Que traz a lama no bico
Pra erguer sua moradia
Faço da greda e do húmus
A base fundamental
Pra criar minha poesia.
Escrevo nas linhas tortas
Que as rodas das carretas
Riscam no barro da estrada
Eternizando, a lo largo,
Cada estrofe que componho
Nesta pauta improvisada.
De barro moldei meu verso:
Da mesma matéria bruta
Dos ranchos pobres e tristes.
E por ter igual origem -
Nas vilas e arrabaldes -
Bem como eles, resiste!
Lodo de leito de açude,
Lama de terra vermelha,
Rastros de poeira e geada -
Assim escrevo meu verso:
Terrunho, simples e rude -
Feito de barro - e mais nada!