Velhas Crianças

Adão Quevedo

 

Há um rangido enferrujado

na dobradiça da porta

e uma lembrança, quase morta,

vem de longe, num costado.

 

Palavras batendo asas

entre as paredes sombrias,

assombradas de poesia...

no eco escuro da casa.

 

O tempo talha à machado,

fere o cerne da existência,

escrevendo reticências

nas memórias do passado...

 

O tempo, senhor do mundo,

silencioso, inclemente,

vai lascando a alma da gente,

adiando a morte aos segundos.

 

Há que se dar guarida

ao valor existencial...

A vela, no castiçal,

é luz breve, feito a vida.

 

Por mais longa a jornada,

o tempo às vezes volta

feito um potro que se solta

do fundo de uma invernada...

 

É a saudade, cheirosa,

oculta entre as ramagens...

Pintando falsas paisagens,

espinho... Antes da rosa...

 

Há um balde, enferrujado,

pendurado na roldana

da nossa vida, profana,

de água desperdiçada.

 

Agulha num fio de linha

costurando a alma do medo,

desafiando os segredos

ocultos nas entrelinhas.

 

Uma lágrima, febril,

assombra o tempo antigo.

O que antes foi abrigo,

hoje é um rancho vazio.

O bem-te-vi ainda canta,

meio triste, sem ninguém,

à espera de quem não vem

regar as flores e as plantas.

 

Porém, o inconsciente

povoa os labirintos

do homem e seus instintos,

macabros e inocentes.

 

Sou meio pedra e ternura,

misto de ódio e perdão,

morrendo de solidão

na boca da noite escura.

 

O tempo, a cada instante,

rouba uma lua de nós...

Rio descendo, rumo à foz,

com seus estios e enchentes.

 

O tempo é soberano,

senhor da eternidade...

Somos restos de saudade

de outras vidas, noutros planos...

 

O tempo...

 

...é o senhor dos destinos,

ilude a vida e as crenças:...

Envelhecemos na infância

para morrermos... meninos