Saudade Não Cicatriza

Mateus Neves da Fontoura

 

A lembrança arranca a casca

Da epiderme do tempo

E a carne do sentimento

Sangra de novo... e de

novo... Sangra por velhos momentos

Por sonhos e despedidas...

Qual um remanso da vida

Nas águas do pensamento...

No corpo do esquecimento:

- Saudade não cicatriza.

 

Saudade é dor que não cessa...

Indelével pisadura...

É talho, que não tem cura,

Cortando fundo na alma...

Saudade apenas se acalma

Mas segue sempre a seu jeito

Deixando o ar rarefeito

E o coração apertado...

É um presente que o passado

Entrega ao rancho do peito.

 

Saudade é o pai que partiu ...

É a doçura das avós...

É o desate dos nós

E a cada qual uma ponta...

Saudade é o que faz as contas

Multiplicarem os dias

Num calendário-nostalgia

De viver o já vivido

Com o mesmo gosto sentido

Num beijo de poesia!

 

Saudade não cicatriza...

Porta que dorme entreaberta,

Que espera a visita certa,

De alguma recordação...

Inverso fogo de chão

Que nasce cinza e vira brasa

E aos poucos aquece a casa

Coloreando o tom escuro

Pois, quando a sombra ergue um muro,

É o luzeiro pra estrada...

 

Saudade é abraço em si mesmo

Nas horas de solidão

É prece a pedir benção

Quando a tristeza machuca...

É o que insiste e retruca

Nos deixando mais cativos

Daquilo que é lenitivo

Nos afastando o vazio

E lembra que quem partiu

Dentro de nós segue vivo!

 

Saudade é rumo e chegada

Onde a memória se apeia

Tecendo, em silêncio, a teia

De inconfundíveis passagens...

A preservar as imagens,

Junto à retina embaçada,

Pois, se esmaecem miradas...

Sorrisos... rostos familiares...

Saudade é a flor dos luares

Clareando nas madrugadas!

 

Saudade não cicatriza...

Nem admite sutura

Há que sangrar limpa e pura

Para amainar os espinhos ...

Saudade é taça de vinho

Erguida num brinde eterno

É colo e seio materno

Que nos empresta aconchego

Saudade é a lã dos pelegos

Que aquenta os nossos invernos

 

Saudade é cerca atorada

Nas sesmarias do tempo...

E a tropa dos sentimentos

Que por ela passa ao tranco...

Saudade é lágrima e pranto

Que verte salgando a face

É o reverso do enlace

Na trança que se desfaz

Mas segue tento de paz

Que em outra trança renasce

 

Saudade é sopro de vento

No descampado que fica...

Quando a lembrança se agita

Teimando em arrancar a casca...

Saudade é sempre o que basta

Pra confortar ansiedades

Que buscam contrariedades

No rastro dos pensamentos

E fazem dos sentimentos

Quedarem-se por metade

 

Saudade não cicatriza...

Segue sangrando e sangrando

E aos poucos vai nos curando

Sarando... insistente e lenta...

Como a benzer as tormentas,

Amansando o que precisa,

Até transformar em brisa

O vendaval mais violento;

A alma só encontra alento...

Saudade não cicatriza!