Rincão - Por Meu Olhar na Querência
Henrique Fernandes
Quando apeia a
primavera
pintando cores nas ladeiras,
perfumando os corredores
e aguçando o cio das potras...
...dando ares veraneiros pras luas
com brilho vítrio...
...e cancha pro escarceio dos sóis
que alongam os dias.
Meus olhos...! ...meus
olhos
garimpam recuerdos
não tão doces como o quadro que
repinto na paisagem,
toda vez que o pé de amora tinge os
galhos do seu lenho.
Venho ajojado na ânsia
por estes olhos de estância
bombeando largo as lonjuras...
...e esta figueira que
assombra
a sombra doce das casas,
abriga as penas e as asas
de lampejos potreadores
no ermo
dos corredores
d’onde o olhar pede vaza...
O lombo baio do campo
viceja
em trigo maduro...
...os aguapés se arregalam
no olho d’ água da fonte,
e um João de Barro posteiro,
se inquilina num pinheiro
na boca de um capãozito
que lindeira
a várzea grande.
Moreja a voz de um cincerro na guela
afiada dos ventos...
...e uma matreira
lembrança se
balança no arame
de uma cerca remendada, mal
alinhada no trilho,
onde as farpas hasteiam cerdas
embandeirando caminhos
com as crinas de algum tordilho.
Pra onde o vento as
embala, o pala
também avoaça,
e farfalha
um fleco
n’outro como
parelha de potro
paleteando num laçante uma zebua
fumaça.
Peitando o laço da
forma
la na mangueira de pedra...
...a petiça se perfila no meio da
cavalhada
e estende o pescoço magro pra um
buçalsito de soga...
...o guri chega e
embuçala, bem antes
da peonada
e logo salta de em pelo, pra repontar as
tambeiras
que amanhecem se apojando
na invemada das
carqueja.
Ai um tinido de
esporas timbrando a
voz das auroras
nos parapeitos de mim...
...e feito látego bem
sovado, que junta fácil as argola
da sobre chincha da alma, aperto as
garra com calma
depois do mate cevado, e me
enforquilho num verso
que cismou em ser milonga e por ser a
lua boa
farei dele bom cavalo...
Foram tantos que dei
doma,
outros tantos sem final.
alguns por mal enfrenados, ou por falta
de costeio
não achei o lado certo e larguei pro
campo aberto
antes mesmo do bocal.
E este olhar manhaneiro que enquadra
a vida rural
em metafóricas rimas, pra os que
andam bem montado,
banhando e curando o gado, ou mesmo
semeando anseios
nos ciclos transcendentais... pra
colher
vagens de ouro
no grão das safras fartosas
pendoada
nos milharais...
...olhar que busca a
distância, além da
própria coragem
mas se amasia
enquadrado ao de redor
de si mesmo...
...é este olhar de
ternura ao ver um
potro nascendo
e entender cada lambida que a égua
mãe vai lambendo,
até sentir em seu seio a primeira
cabeçada,
garantindo enfim a prole que terá o
mesmo destino
d’outros potros da
invernada.
...é este olhar que a
saudade transforma
o sal das tristezas
em sorrisos de doçura...
... se
a vida se destempera virando o fio
do destino,
a chaira da
complacência assenta
e alinha os passos,
para que o corte do aço deixe marcas
de candura...
...por este olhar de
querência, que
refestelo as ausências
nas amplitudes terrunhas
da mais
campeira figura,
feições de campo e distancia na
temperança absorta
dalgum passado
remoto que se
enquadra nas molduras,
e se eternizam na seriedade da face dos
bisavós...
...são traços rudes,
singelos,
que em preto e amarelo
trazem um tanto de nós.
É nos mates lenitivos que perenizo a
essência.
São visões interioranas
que toca a alma
no fundo,
dando tato para os olhos enxergar as
“cosas” simples
que fragmentam meu mundo...
...o tranco das vacas
mansas que marca
o trilho no pasto...
...as flores que
improvisam formas
numa pegada de casco
pela leiva
levantada da tropa que deixou
rastro...
O aroma que dos
arreios exalam
depois da lida, adentram
pelas narinas
recompondo nossa essência c’o
cheiro das barrigueiras e dos
bacheiros
suados e, se
espalham pelo sangue
saciando a alma de campo com
este fluido terrunho pra
quem traz dentro de si
uma querência de patas
e um chão de ferro templado.
É este o chão que eu
comungo
pelos fogões do meu pago...
...é este o chão que
eu retrato
quando o fiel do rebenque
abraça o punho canhoto
e eu tombo o chapéu maroto
bem tapiadito pra o
lado.
É esta sina andarilha
de povoar as “encilha”
mesmo que o dia clareie
num pelo alobunado.
-chasqueio a volta das
puas
confortando as rédeas cruas
e dando pouso pras luas
na testa dos desbocados-.
...a prosa das caturritas
na copa dos taquarais,
limitam as nostalgias
num improviso ignoto
da charla dos animais..
... mas
que a pureza dos olhos
presa as retinas do campo,
compreende a voz destes tantos
por sermos todos iguais
Só quem tem raízes
fortes,
sabe o valor deste chão...
Quem regou o próprio
umbigo
com a água dos mananciais...
...sabe o valor desta
terra...
ao qual chamo de rincão.