O Outro Eu

Rodrigo Bauer

 

I

Existe um outro eu, que me observa,

oculto, em minhas sombras mais remotas...

Por vezes, ele leva as minha botas,

em outras, na distância se conserva!

 

A minha intimidade não preserva

nem mesmo na vitória ou na derrota...

E quando há colisão em nossas rotas

não sei de quem é o Voto de Minerva!

 

Conhece, uma a uma, minhas penas

e sabe das angústias mais pequenas;

assim, jamais se encontra imparcial...

Acusa, me defende, entra em cena;

e quando me absolve ou me condena,

nem sabe do seu próprio tribunal!

 

II

Existe um outro eu, que me domina,

ás vezes é mais jovem, incontido;

e tem, no seu reflexo, o sentido

que quer se alimentar de adrenalina!

 

Por outras, ele acalma a minha sina

e assume um universo carcomido,

tal fosse um ancião desiludido

ou mesmo alguém repleto de morfina!

 

Não sei se essa gangorra se sustenta...

Um dia esse elástico arrebenta

e algum de nós, periga estar enfermo!

 

Por que será que é brisa ou é tormenta?

Com ele tudo é oito ou oitenta;

ficando só em mim, o meio termo!

 

III

Existe um outro eu, que vai embora...

Vai se esvaindo, em cada novo dia,

vai gotejando feito uma sangria...

Água da chuva que o sol evapora!

 

Escuto o canto do seu par de esporas...

Estrelas velhas, hoje fugidias...

Brasas cadentes nessa melodia

de quem já sabe que é chegada a hora!

 

um outro eu! Disso não mais duvido!

E, embora, ambos não se deem ouvidos,

não sei se sou mais ele ou sou mais eu...

 

Só sei que ando um tanto diminuído,

Ninguém me disse nada mas, doído,

eu desconfio que um de nós morreu!