Do Que se Pode Dizer de um Poncho Pátria
Guilherme Collares
Como um rancho
abandonado,
desprovido da energia vital
que o ampara e acalenta,
e que se debruça sobre si
como uma rês sangrada,
estás hoje, em qualquer gancho...
... simbionte!
A mesma energia vital
que auxiliastes a manter,
sustinha a ti próprio...
E andando na garupa
ou mesmo aberto sobre a anca,
captaste a energia do universo
a que te expunhas:
A energia sonora dos
gritos
tropeiros,
dos cincerros das madrinhas
e do canto de quem ronda,
quando a noite encerra o pranto
no lamento feito berro,
pela querência perdida, dos
tambeiros.
De tanta herança e fidalguia,
por necessidade, mãe do uso,
recebeste o nome merecido:
... “Poncho-Pátria”!...
... em
expressão singular que fez
querência
nascer da forma que pendia em cada
ombro.
E assim, transcendeste
a expressão
e foste o próprio pago do tropeiro
- fogão... sustento... e rancho –
Ao mesmo tempo!...
E soubeste de
aguaceiros e geadas,
e teu carnal vermelho
renascia,
volta-dobrando em cada ombro,
como um sol nascente que luzia,
tremeluzindo a pampa na alvorada.
E entendeste do sereno
e céu noturno
bem junto a quem sonhou imerso em ti...
e mediu em brilhos vivos das estrelas
a distância de alguns olhos feiticeiros
esperando pelos pagos deste sul...
Dicotômico, és a cor da nostalgia...
no azul do céu de inverno no poente...
Mas também sabes ser
rubro como o fogo
que confunde a luz da aurora em sol nascente.
E sempre valeste muito
pouco,
se apenas comparado teu valor pelo dinheiro...
Somente sabe do valor
de um Poncho-Pátria
quem, com ele, soube um dia desafiar
a força bruta do aguaceiro.
Só entende do valor
que agrega vida
quem, do poncho, fez abrigo das geadas.
Vale pouco!... muito pouco!... qualquer plata,
quando alguém sente a própria alma enregelada.
E assim estás
ficando... ainda és poncho.
Mas bem longe dos
tropeiros e estradas...
A energia a que te prendes,
quase finda,
desafia hoje bem pouco as alvoradas...
Já também andas mui
pouco pelas ancas
e nem entendes mais das malas bem sovadas...
Em que deixavas o vermelho
da baeta
como uma ferida exposta, que sangrava.
Hoje vemos teu valor
desperdiçado
pelos ganchos e varais, quase sem força...
Pouco bebes do calor e
da energia
de uma tropa encordoada nas distâncias...
E serás
sempre a energia
de quem tem muito pouco,
enquanto houver o frio e quem precisa...
Enquanto houver
gaúcho, serás Pátria...
Razão da alma tropeira...
Sempre viva.