Depois da Terra e dos Galpões

Xirú Antunes

 

Pelos galpões da Querência

vi homens rondando agostos

com olhares de setembro,

adivinhavam seus medos

pela orelha do cavalo

e gritos de quero-queros,

e salpicados de estrelas,

bebiam céus de silêncio!

 

Sacramentei minhas nuances,

embaladoras de bastos,

na infância do cavalete

sob o teto do galpão,

como se fossem orações

no entardecer da minha alma,

porque sementes de pasto

brotavam em meu coração.

 

Depois dos galpões da terra

Terei meus olhos tropeiros

miradores de horizonte

rastreando o chão das estradas,

com a alma branca nas tardes

e um coração de querência,

ressonando em tempo gasto,

pela inconstância do tempo?

 

Se retornar pelo tempo,

na forma das criaturas,

terei a mesma alma gaúcha

da terra que me moldou,

serei voz rouca de avô

e infância linda de neto,

serei o jeito e o gesto

que em outra vida faltou?

 

Escutarei o “sorzal”,

recostado em algum basto,

repetido de consciência

cismando no meu compasso,

serão meus olhos tropeiros

com impressões da matéria,

cuidando a alma dos filhos,

em comunhão com a terra?

Terei visões das heranças,

terei ventos na memória,

e os ciclos da minha história

terrestres por descendência,

flutuarão na consciência

erguida em cada silêncio,

nas partituras dos ventos,

pelas rodas das carretas?

 

Pelo que sinto e o que sou,

condição de três Pátrias,

retornarei ao chão bugre,

que a mim batizou,

pois estas raízes terrunhas,

transcendem ao tempo gasto,

por terem memórias de pastos,

e da poeira dos galpões!

 

E contrariando as visões,

retornarei pelo tempo,

na forma das criaturas,

tendo a mesma alma gaúcha,

da terra que me moldou,

serei voz rouca de avô,

e infância linda do neto,

serei o jeito e o gesto,

que em outra vida me faltou!