A Casa Primeira
Kayke Mello
A casa primeira era
simples de estrutura,
De paredes antigas
pintadas de história.
As portuguesas
sustentavam a cobertura.
Por ser a primeira, eu
a trago na memória.
As janelas de ver o
mundo eram amarelas
Com flores que
desabrochavam na soleira.
As abelhas se
debruçavam sobre elas,
Assim era o rosto
desta casa primeira.
Ali fui criado entre
os bichos e o tempo.
Cenário altivo,
cachorros e pitangueira.
O pátio era grande
praquele “atempo”
Aos olhos do miúdo
para a casa primeira.
“Os Fundos” fora palco
de muitas batalhas
Dos verdes soldados
com a alma guerreira.
Nas trincheiras das
folhas imensas muralhas,
Foram fiéis escudeiros
da casa primeira.
Também foi abrigo para
os gados de osso.
Foi cerca,
potreiro, corredor e mangueira.
Foi açude e palácio no meu sonho moço.
Pousada de pipas foi a casa primeira.
Chegado o domingo com
a família reunida
E a frente da casa se
apinhava de gente.
Na hora da bóia: - Tá pronta a comida!
Pra o rancho emponchar tudo e todos calmamente.
A paz domingueira aos poucos
se agita.
Alguns apreensivos com
o que há no estádio.
Já eu me conforto
ouvindo uma coplita
No tranco milongueiro das ondas do rádio.
E quando a chuva abria
a estação dos verões,
As mãos das
portuguesas viravam cachoeiras
Banhando melenas,
corpos e os corações
Do piazedo
a brincar nas águas passageiras.
Mais que morada tens raízes ancestrais,
Cruzando intempéries
com sua alma inteira.
Rangem as dobradiças
que firmaram meus pais
Para soar o teu canto,
oh casa primeira.
A sexta da rua, embora
a primeira,
Ergueu-se dos sonhos
de quem planta esperança
De um dia ter rancho, piazote e
parceira.
Quem semeou o tijolo
colheu a bonança.
O tempo surpreende
muito mais que os encalços.
Meus filhos já buscam
teus frutos pitangueira
E correm felizes com
os pisares descalços,
Trazendo mais vida
para a casa primeira.