UM VIOLÃO ABANDONADO

Autor: Carlos Ornar Villela Gomes
Declamador: Romeu Weber
Amadrinhador: Geraldo Trindade

A noite beijou meu rosto
com ar de mãe carinhosa,
Desenredou sua prosa
entre sussurros perdidos;
Despetalou os sentidos
em cada face sombria
E deu risada do dia,
que há muito tinha partido.

 

A timidez de uma estrela
se desenhou logo adiante,

Mas seu sorriso distante,
mesmo
silente, chamou;

Logo a lua se mostrou,
jorrando sua claridade
E a noite, bela e covarde,
aos poucos
me atropelou.

 

O que amola na penumbra
não é o vento
rezingando,

Nem o silêncio cortando
as horas de solidão;

O que parte o coração
é ver as notas caladas
E a cantiga abandonada
da silhueta de um violão.

 

Um violão abandonado,
jogado à beira do mato,

O mais tristonho dos fatos
sangrando na noite fria;

O parceiro das poesias
deitado nas folhas mortas,
Fechando suas comportas
de sonhos e melodias.

 

Os lanhos lembram feridas
dalgum guerreiro tombado,
Um sorriso desbotado
na hora da despedida;

As chegadas e partidas
resumidas no abandono
De um violãozinho sem dono,
lembrando um corpo sem vida.

 

As cordas se “remalharam”,
se foram no fio do tempo,
Seis horizontes, seis tentos,
que davam luz a esse pinho;
Ou talvez um passarinho
levou seus restos no bico,
Rumo ao destino mais rico
de ser sustento pra um ninho.

 

Quantas mágoas debruçadas
na alma do guitarreiro,
Todo o sal do desespero
correndo dos olhos baços;

O tempo riscando os traços
hesitantes da incerteza
E aquilo que era beleza
virou o pó dos seus passos.

 

Quem sabe do guitarreiro,
da sua doçura ou veneno?
Quem sabe dos seus extremos,
da solidão que devora?
Quem sabe uma flor de outrora
o retalhou com suas garras,

E ao se livrar da guitarra
jogou a sua alma fora.

 

Já sem alma, foi adiante
procurando o fim do mundo,
Onde árido e fecundo
se misturam no retrato;

, Mas o direito e o fato já sabem,
não há saída,

Pois ele deixou sua vida
jogada à beira do mato!

 

Ou será que de alegria,
de pura felicidade,

Um gaúcho de verdade,

pacholento e fanfarrão;

Encheu o seu borrachão

e o peito de canha pura,

E no final da aventura
extraviou esse violão?

 

Somente o seu bojo sabe,
somente o braço sustenta,

Se calmaria ou tormenta
regeram o seu destino;

Se um sentimento ferino,
por maula, lhe jogou fora,

Ou se algum taura pachola
se atrapalhou, por teatino.

 

Num violão moram fantasmas,
gemidos e
rebeldias,
Rugidos e ventanias,
arpejos de temporal;

O mais terrunho ritual,
também os sons mais sagrados...
Um violão bem empunhado
é mais que uma catedral.

 

Os sentidos, os olhares,
os desejos e
ternuras,

Os segredos e as doçuras
da alma no tocador;

O cheiro de cada flor,
cada paixão feiticeira,

E um sonho pra vida inteira,
que os poetas chamam de amor.
Um dia a madeira some,
as
cravelhas se dissolvem,

E o tempo aos poucos
remove o seu corpo de violão;
Normal decomposição
dessa orgânica existência,
Mas nada
destrói a essência
de quando se fez canção.

 

Pois as notas dançarinas
valseiam livres na volta,

Formando a mais linda escolta
que alguém já ousou formar;

Sou eu, a paz do lugar
e a noite, chorando ao lado
De um violão abandonado,
deitado aos pés do luar.