SE ME ATACO DA VENETA

Autor: Vaine Darde
Declamador: Pauio Severo
Amadrinhadores:

Lenin Nunes e Miguel Tejera

Eu declinei da ternura
porque de tanto que luto
o meu canto ficou bruto
de verso e de partitura
pois não se quebra estruturas
com o lirismo nas letras
quando um bando de sotretas
se apodera do futuro
e a tudo que não aturo
eu
me ataco da veneta.

 

De tudo que se produz,
a custo de muito preço,
nos roubam mais de um terço
e o retorno se reduz
a nada que faça jus
ao suor de nossa lida
nesses espólios de vida
que nos fazem infelizes
por sugarem as raízes
das esperanças perdidas.

 

Se o campo se desventura,
vai-se “a
la cria” a matriz,
pois não se faz um país
sem rebanho e agricultura.
-Caramba, que vida dura
este ofício de
campeiro
de changuear pelo pucheiro,

cuidar de taipa e de vaca
só pra encher a guaiaca
de um bando bandoleiros!

 

Foi por essas circunstâncias
que alguns tempos atrás,
patrão, peão e capataz
se insurgiram nas estâncias
pra lutar contra a ganância
e tamanhos impropérios,
pela falta de critérios
de quem suga a quem trabalha,
que o pampa se fez batalha
contra as hordas do império.

 

É por isso que o meu verso
perdeu o encanto e o lume
pra se transformar num gume
nestes tempos adversos
quando o pão fica impresso
com o sangue nas livretas
e o país vira carpeta
de um jogo de interesses,
mas todo aquele que pense
vai se atacar da veneta!

 

Usar a força dos braços
pra o lucro dos imponentes,
sustentando os gabinetes
e a luxúria dos palácios,
nos faz desfazer os laços
e abandonar a tropilha
Já cansados das encilhas
do descaso e do mal trato
dos senhores do planalto
com o povo das coxilhas.

 

Por isto, por estas plagas,
mesmo a poesia protesta
e o versejar dos poetas
se torna o fio das adagas.
Até quando a velha saga
vai encilhar os cavalos
pra enfrentar os vassalos,
os mesmos que tresantontem
beberam de nossas fontes
até encher os gargalos.

 

Só quem lavra campo afora
e pastoreia o rebanho
desde o tempo de antanho
até os dias de agora
com o dom de quem labora
para pôr o pão na
mesa,
sofre todas incertezas
de colher o próprio pão
pelos males da ambição
que instituiu a pobreza.

 

A la pucha, mundo louco
que nos leva aos extremos
de pagar o que não temos
e viver neste sufoco,
num regime arcaico e tosco
que somente a si promove,
que exige e não resolve
as penúrias de uma gente
explorada por um ente
que só cobra e não devolve.

 

Desculpe se mal me expresso
no contexto da pajada,
mas nessa crise danada
de um jugo podre e perverso,
desembainho meu verso
e me armo de caneta
qual se fosse baioneta
que crava o verbo bem fundo
pra pôr a boca no mundo
se me ataco da veneta!