RELATO DA NAZARENA

Autor: Matheus Costa
Declamador: Priscila Alves Colchete
Amadrinhador: Marcus Morais

Tenho a pressa pela sina
E o respeito aquerenciado
Com a gêmea do meu corpo
Talareando no outro lado,

Todos respeitam minha voz
Bem mais o fio que carrego
E beijo a prata da lua
Quando em silêncio
me entrego.

 

Cada dente pontiagudo
Que carrego - ao meu jeito -
É um desamor que trago
Por não os deixar no peito,
Nunca pude ser estrela
Sobrou-me o tino de espora
Por não saber de carinhos
Minha alma em verso chora.

 

Se me arrastam, onde cruzo
Deixo bem mais que um desenho
O rastro que
me conduz
É a forja de onde venho,

Fui a cura das saudades
Quando apurei toda estrada...

Fui a própria solidão
Dormindo
dependurada.

 

Sou razão de aprendizado
Mesmo com pequenos dentes
Na primeira vez atada
No garrão de um descendente,

Pra depois ser picardia

E mesmo sendo chorona
Jamais renego o costeio
Contra quem esquece a doma.

 

Às vezes, injustiçada
Na incerteza do clamor
Abraço o treval cerrado
E
me enredo em uma flor,
Que assim, sem saber como
Dá adeus à vida serena
E morre negando o beijo
Dos dentes da nazarena.

 

Já fui relógio inocente
À alguém perdido nas horas
Que
me escutando, sem ver
Nem
me lembrou por espora,
Até
apear num rancho
Pra uma visita de amor
E
me deixar na ramada
Com a poeira do corredor.

 

Dizem que levo por diante
Copiado em minha figura
O semblante das estrelas
Nas suas formas mais puras,
Mas meus dentes - tal espinhos
Culpados pelas sangrias
Nem se comparam ao corpo
Tão belo das Três
Marias.

 

Quis ser sinal de romances
Mas o destino assim quis
Que eu ensine pelo corte
E aprenda com a cicatriz,
Não pude ser flor do campo
Tão pouco de algum jardim
Restou-me os tentos de couro
Que entoam juras à mim.

 

Por léguas, relato mágoas
Canto sonhos, e somente
Levo saudades comigo
Pelas distâncias em frente...
Carícias? Pouco conheço
Mesmo tendo coração,
Nestas horas, eu que sinto
O corte da solidão.

 

Talvez por não ter nascido
Feito estas moças que vejo
Que com lábios colorados
Entregam doce em seus beijos,
Eu tenha o duro castigo
De provar que já amei
Mas não convencer jamais
Por tantos que já cortei.

 

Nem canto a gêmea que trago
Do lado inverso que venho
Também espora, imagino
Que tenha as mágoas que tenho...
Mas eu lhe bem-digo em prece
Se alguém possa me escutar,
Pois foi somente com ela Que pude formar um par.

 

De noite poucos me escutam
Canto minhas dores de dia
E à quem tem campo na alma
Sou bem
mais que melodia,

Os galos quebram meu sono
Namoro os tentos atados...

Tenho a pressa pela sina
E o respeito aquerenciado.