O TEMPO É OUTRO

Autor: Lisandro Amaral
Declamador: Lisandro Amaral
Amadrinhador: Pedro Silva Sá

No branco pano do tempo
pergunto ao frio do poema:
que vim fazer nestes campos?

 

Se eu nem do campo não era...
nasci na primavera e,
aos passos dos domadores,
deixei pra trás os doutores
e outras consciências tapera...

 

Na bravura maneadora,
no penacho das tesouras
e couros largos de doma,
fui percebendo o que soma
na seleção da semente...

 

Fui recebendo o diploma
do canto terra que soma
no valor total da gente.

 

Senti o suor do inocente
com cheiro de erva e chuva;
com jeito de mel e uva...
faces de barro de rancho.

 

Fumaça veeeem...e se vai...

 

Que vim fazer pra estes lados?
Sentir o chão colorado
pele do rio Uruguai...

(Enxuga o pranto Senhor...
vós que ensinastes plantar
E o rio do peixe dourado
anda com fúria de mar.)

 

Ouço mágoas de posteiro
em cada fio de potreiro

que morre em gotas de nós
Ouço o cântico das águas
chorando penas e mágoas
da solidão de uma voz

 

Não mais o campo lavrado,
agora, tudo mudado na profecia Maicá.

 

Silêncio é berro de gado,
silêncio é guincho de potro
silêncio é canto de galo!

Não... não há mais riso de gente
Sei do passado, perdido o presente.

 

Beira de povo: o tempo é outro!

 

Sabico era das tropas
quando chegaram zunindo
roncos de força de arado.

 

Motosserra e não machado
cavaqueando a coronilha
e outros matos abrindo trilha
onde eu nunca vi pecado.

 

Cinco potros bem costeados.

Sabiá em volta dos gados
e o touro que da pra um laço.

Nem sabia sua inocência
que era um fiapo de querência
morrendo ao tempo do aço.

 

Sabico risada Forte,
não precisava de norte
pois tinha o sul do cruzeiro
e de São Luiz ao Puitã
tinha um vôo de tajã
e as voltas de um misisioneiro.

 

Sabico um gole te canha
como hóstia em bom Domingo
Sabico um asco de gringo
na escaramuça em lua cheia
e um olhar que corcoveia
por ir perdendo a inocência
quando perdendo
querência alma branca fica feia.

 

Maragato!

 

Maragato de alma pura,

tinha mulas pra lonjura
e os lábios roxos da írma

Seis léguas de sesmaria
num potreiro de magia
que cercou à beira estrada
como disse o Mano Lima
- bom troveiro e domador -

 

“Foi ele meu professor
o Maragato Antenor de adiante da
Encruzilhada”

Um guardião do bom dialeto
bigodão analfabeto
- centenária educação -
Sabia o valor da gente,
sentiu medo da semente
que plantava a evolução.

 

Maragato! A própria firma...

Na doçura que se firma,
buscava o batom da írma
Pra beijar no chimarrão.

 

O que eu vim fazer aqui!!!?
Qual o vento que
me traz?
Aniquilam-se as estâncias
deixam tristes as distâncias

 

Não se sabe o que se faz
Evolução anda pra frente???

 

Produzir mata essa gente
que não sabe o que hoje jaz.

 

A peonada em bandalheira
Já não fecha mais porteira
Alambrado? Não se faz...
Mataram o posto nobre
Bom salário? Morre o pobre

 

Na extinção do Capataz.

 

(Enxuga o pranto Senhor...
vós que ensinastes plantar
E o rio do peixe dourado
anda com fúria de mar.)

 

Que vim fazer pra estes lados?
Sentir o chão colorado

pele do rio Uruguai...


(Voltei ao rancho
da querência onde
nasci
Vim ao tranquito
assoviando uma vaneira
Não vi
ramada,
não vi rancho nem mangueira
Pensei comigo - com certeza -
me perdi)