O ADEUS AO VELHO POETA

Autor: Luis Lopes de Souza
Declamador: Rodrigo Cavalheiro
Amadrinhador: Douglas Brum
e Matheus Lameira

As musas, chegam silentes...

No adeus vago e remoto
brilham auras derradeiras
de santas de um só devoto...

 

Sim! Foi esse velho poeta,
que viu por imaculados
seus olhares e sorrisos,
que hoje estão eternizados
no esquecimento dos livros....

 

... nos reprimidos lamentos
não demonstram suas magoas
nem sequer ressentimentos...
... num desfile quase alado
mais parecendo uma réstia,
cada uma faz as honras
pra idolatria que resta....

 

Param mórbidas no esquife...
e olham urgindo segredos
com bizarras orações
entre saudades e medos...
Os dedos tocam de leve
como num algo sagrado,
sentindo talvez remorsos
entre o perdão e o pecado...

 

No rosto, nem uma lágrima,
musas não sabem chorar
todas elas são reclusas
na perfeição do olhar.

... resta o silêncio gelado
do velho e ousado poeta,
que repousa, qual uma estatua
com mil palavras secretas...

 

Mas e agora??

Quem cantará de alma pura
indescritíveis belezas
que cada musa esbanja
por regra da natureza...
Quem passará madrugadas
soletrando garatujas
pra descrever sem permisso
uma por uma das musas...?

 

E quem vai chorar por elas
mesmo em secreta ilusão?

Pois poeta é pecador
e não sabe pedir perdão....
Quem vai vagar pelos campos
Com soluços e lamúrias
chamando as musas ausentes
no cio das noites de luas...?

 

... faltará alguém a esmo
cômico e caricato,
proferindo em palavras
os mais perfeitos retratos...

Faltará um poeta ímpio
que indiferente ao pecado
cantava sonetos pobres
cumprindo o eterno fado....
Faltará um maltrapilho
pelas ruas do povoado,
com temas tidos por tolos
muitas vezes repudiados...

E por certo era feliz
alimentando loucuras
venerando suas musas
no silêncio das molduras...

 

... um prosaico relegado
pelos versos que cantou,
maculou a perfeição
das musas que venerou.

 

Restam, soluços imprevistos
num murmurejo sacral,
e o velho poeta teso
como num ponto final...
Sapatos hirtos pra o céu
mãos postas como é preciso,
e a cada musa presente
no rosto um breve sorriso...

 

Mas e agora??

Quem vai ser o anjo demônio
fazendo versos em preces
escrevendo quase nada
do muito que elas merecem...?

 

... Quem sabe vieram cobrar
no adeus ao velho poeta
as poesias rascunhadas
que ficaram incompletas...!

 

... não surgirá outro louco
com palavras inocentes
rabiscando silhuetas
com provérbios diferentes...

... não haverá um solito
que no auge da partida
já não pode mais cantar
suas musas proibidas...

 

... elas mereciam mais
e não faltou inspiração...
faltou a grandeza plena
pra tão sublime missão.

... o poeta é transcendente
mas se apaga na história,
e as musas são os anjos
que eternizam, sua memória!