Êxodo
Autor: Rafael Machado
Declamador:
Rafael Machado
Amadrinhador:
Kiko Goulart
Talvez quem
ouça não creia
mas aquele caserio
plantado beirando o rio,
sujo por conta das cheias,
... De
primeiro foi rincão
ou como queiram: Querência!
Nos usos, na convivência,
na aparência e povoação.
Os ranchos -
barro e capim -
tal como agora discretos
guardavam talvez dez metros
um do outro, algo assim.
E um povo, tenho pra mim,
acostumado ao pesado
dos pés e mãos calejados
mas d’uma
alma sem fim.
Seus homens eram do rio,
da mata e seus luares...
Suas
senhoras dos lares,
das tranças de lã pra o frio.
Crianças eram bondade,
brincavam sem contratempo
já os mais maduros exemplo
de vida e dignidade!
A terra -
velho elemento -
na sucessão de culturas
hora ofertava fartura
nem tanto n’outros momentos,
Quem soube
domar seus ventos
co’as mãos da perseverança
plantou sonhos... Esperança.
Colheu frutos... Alimento.
Ainda assim,
de repente,
como da noite pra o dia
velhos costumes, manias,
acordaram diferentes.
Passaram-se
poucos anos
e muita coisa mudou.
Desse pouco que sobrou
sobrou muito desengano.
Veio seca,
veio enchente,
todo um ciclo, se conhece,
e o campo por mais que desse
nunca dava o suficiente.
Nisso a cãibra pertinente
do tempo- realidade -
apontou luz de cidade
como norte pra esta gente.
Findou-se a
vida tranqüila
e quem ladeirava estradas
passou a margear calçadas
no aperto brabo das vilas.
Era o mundo
- de mudado -
aprisionando em encerras
os nobres filhos da terra
para sempre desterrados!
Sei de tudo isso, pois
passei aqui quando potro;
chibeando d’um lado à outro,
tropeando mulas e bois.
Para quem
viu o que foi
todo esse caserio,
plantado beirando o rio,
é triste vê-lo depois!
Parece que tenho areia
nos olhos ao ver vazio
todo esse caserio...
- Talvez
quem ouça não creia!