ELEGIA AO
GALO ÍNDIO
Autor: Sebastião Teixeira Corrêa
Declamador: Jadir Oliveira
Amadrinhador: Jadir Oliveira
Filho
Olhei o terreiro grande,
onde outrora o galo índio
Exibia sua prole
nas manhãs de primavera;
E vi um vazio enorme,
num terreiro já disforme
Como um rancho já tapera.
Não vejo mais o meu galo
cantando lá no puleiro
Pra alegrar a galinhada
espalhada no terreiro.
Há um silêncio que desola
nas compridas madrugadas,
Já não se ouve a cantiga
que anunciava a alvorada;
- O canto que despertava
no rouco da tua voz
O sonho de um novo dia,
já não está entre nós...
Mataram junto a teu canto
a cultura milenar
Sagrado atleta de Olimpo,
rude campeiro a pelear.
Apenas porque és valente,
nascido para as peleias
Não compreendem alguns viventes
que o sangue de tuas veias
É o mesmo sangue dos guapos
que foram meus ancestrais,
É o mesmo sangue farrapo
que não recua jamais
Aguenta firme a refrega,
morre de pé e não se entrega
Porque és galo... nada mais
...!
A lei que prevê a pena,
napanacéia
que acena,
É a mesma lei que condena
uma espécie à extinção,
Não considera raízes,
história, povo, matizes,
A essência da formação
O Movimento Gaúcho
fala de modo especial
Dentro do Plano Social
escrito lá por noventa,
Mostrando o Norte que orienta
cultura e preservação,
Porém, calou-se a garganta
de alguns tradicionalistas
Que baixaram suas cristas,
desonrando a tradição.
Assim vingou a falácia
dos pseudos moralistas
Intimidando os galistas
(que não praticam maus tratos),
Mas se alicerçam nos fatos
que a
tradição os legou
Pois desde que o mundo é mundo
e desde que gente é gente
Se conhece o combatente
que o Patrão Grande criou.
E a ninguém se dá o direito
de extinguir da natureza
A presença e a beleza,
seja da espécie que for,
Sei que merece louvor
quem tem amor pelos bichos
E, com certeza, por isso,
merecerão a clemência
Mas, garantir descendência
é parte do compromisso.
Hoje lembro com carinho
o presente do padrinho
Nos idos de minha infância:
Um frangote colorado
com o bico bem afiado,
Recém largando os batoques.
Havia grande importância
na essência desse regalo,
Simbolizava uma herança
que vinha através do galo.
Depois do Antônio tomás,
Laurindo Mendes, Monteiro...
Foram tantos os parceiros,
que já não cabe na tarca,
Ando a esperar que retorne
o timbre macho de um galo
Que há de chegar de acavalo
no canto de algum Monarca.
Não venham dizer letrados
que hoje faço apologia
Tão pouco é analogia
a institutos legais
São valores essenciais
de uma cultura, de um povo,
Apenas busco, de novo,
a inspiração na poesia
Para fazer elegia
a quem deu tanta alegria
À vida dos ancestrais
Enxergo enorme vazio assim
como em meu terreiro
Na vida do povo ordeiro
que trabalha pra viver
Sem o estado prover
fundamentais garantias
De escola e de moradia,
de saúde e segurança,
Enquanto provê bonança
às classes privilegiadas,
Altos salários, mesadas
a quem consegue a barganha;
“Lobo é lobo”, assim é a manha
para os que vivem de olada.
Quero um dia o galo índio
povoando o terreiro grande
E torcer pra que alguém
mande apoio de fundamento
A quem produz alimento
pra alimentar quem faz leis,
Que se dissolvam as greis
de cunho corporativo,
Que este pago
aonde vivo
cumpra o lema da Bandeira,
Mostre que não há fronteiras
nesta querência de guapos
E que o ideal dos farrapos,
mais do que nunca, está vivo...!!!