Um Quadro em Preto e Branco

Tatiane da Rosa Crestani

 

No espinhaço dos caminhos,

Há um vazio que silencia

E invade a espera do sono

Dos que resistem à mordaça,

Enquanto a noite se achega

Trazendo medo, e escuridão...

 

Num tempo, á muito esquecido,

Perdido nas madrugadas

Com açoites e chibatas,

A noite derrama lágrimas

Aos cativos que partiram,

Para nunca mais voltar...

 

Uma sala abriga a história,

De lutas por liberdade

E repúdio ao desrespeito,

De vidas escravizadas

Pelo negrume da cor,

Que selava seus destinos...

 

Na velha casa sombria

Entre fotos preto e branco,

Vejo uma velha senhora

De olhos fundos, a fitar,

Algo além do meu olhar,

Escondido nas retinas...

 

Havia neles um medo,

Uma sentença de dor.

Revelando a sua história

Sentada à minha frente,

De atrocidades impostas

Num rabisco na parede.

 

Eu, logo fui entendendo

Que, a imagem emoldurada

Refletia uma senzala

Disfarçada de pintura,

Evidenciando a escravidão

Neste quadro, em preto e branco!

 

Como pode uma só foto

Contar tanto do passado.

Mostrando falsos sorrisos

Mergulhados num escuro,

De uma tela negra e fria

Com cores de solidão...

 

Entre um cômodo e outro,

Há sorrisos que me fitam

Além da velha senhora.

Alguns com autoridade

De quem foi o grande “sinhô”

Desta casa abandonada!

 

E nas vidraças, trincadas,

Que traz séculos de histórias,

São como os vincos no rosto

Da senhora emoldurada,

Que saiu do velho quadro

Pra habitar a minha mente...

 

Vou andando pela casa,

Falando comigo mesma:

- Esses quadros, na parede,

Trazem urgência e verdade...

Me desperta um sentimento

De busca por unidade!

 

Um mundo que eu não vivera

Deixou duras marcas, e hoje,

Vivencio a submissão

E obediência a tiranos,

Que buscam poder e glória

Através da servidão...

 

Os coronéis do passado

Renasceram neste século,

Trouxeram, de contrabando,

Um olhar de prejulgamento,

De soberba e preconceito

Que açoita altivez de um povo!

 

O minuano uiva lá fora,

Num choro de antepassados

Que, maltratados andavam,

Diante dos que mandavam

Que dormissem no relento,

Em tantas noites geladas...

 

Neste momento, chorei...

Chorei gotas de vergonha

Pela hipocrisia de um povo,

Que se achava no direito

De ser melhor por sua cor,

Num profundo desrespeito.

 

Despeço-me das paredes,

Dos quadros amarelados.

Mas levo junto comigo

A certeza de mudança,

E o espírito da Lei Áurea

De lutar, por igualdade!