Por ter Penas na Alma
Alberto Sales
O badalar do sino
Se deu voz a quieta manhã
Contraponteando com as patas
Dum mouro delgado estradeiro,
E junto do miúdo trote
As abas largas do sombreiro,
Sombreando o rosto calado
Moldado em chão tropeiro.
Sofrenou o pingo, apeou,
O palheiro já um toco
Que apagara girando o pé,
O cabresto bem atado
(Sinal de quem demora)
De fronte ao local sagrado,
Solta o barbicacho em
respeito
Erguendo o seu olhar parado.
Pra quem cortou distâncias
No lerdo passo da tropa,
Na culatra ou pelo fiador
- Pois quando se desgarrava
Um boi, num capão de mato,
Lá se ia o dito que se
espreitava
Entre as tramas da galharia,
Junto ao mouro que o buscava.
Então... Se
fizera um cerno
Com as amargas tropeadas
Que a vida lhe impusera...
(O destino à sua sentença)
Desigual os dias de antanho
Que já rebuscados na memória,
Do rancho, família e fogão,
Legados vindos de herança.
A cordeona
viva nas noites
Sob um céu de Santa-fé,
A gurizada correndo
Entre as gargalhadas fortes
Da primitiva alegria.
Donde a lua testemunha
Bocejava e partia...
E dormiam por toda a parte
Despertando com o sol do dia.
Mas se veio um tempo maula
Quando os clarins se
anunciavam,
Calando com as carreiradas
A liberdade e todo o
sossego...
Emudeceram os povoados,
Arrancando das famílias o
apego,
Pois o destino a cada um pertence
Como os arreios do pelego.
Calmo, de grande sabedoria
Adquirida com toda a sua
vivência,
Adentrou na sala de manso,
Comungando o silêncio com
todos,
Donde seguiam palavras jovens
vindas do altar;
Que de fronte a porta, o clarão,
Enxergava o sol a brilhar
Moldando a silueta
De quem adentrara na ocasião.
Ficou de pé com chapéu na mãos
Naquela mesma calmaria,
Quando se para pra pensar
Na lição que nos ensina a
vida,
Tantas pedras nos caminhos
Tantos são nossos espinhos,
Não se pode parar pelo meio,
Onde o sentimento vagueia
Onde o perdão se faz esteio.
De lenço avermelhando o
peito,
O velho, ao vigário indagou:
- Vim pedir a tua benção
Como manda a Santa Igreja;
Sem dar tamanha importância
Pro
desconhecido que chegara,
Num ar de tolerância
O vigário balançou a
cabeça...
Na vertical da estância.
Antes de findar o meu tempo
Preciso me confessar...
Preciso cicatrizar a ferida
Dos meus vinte anos passados,
Que nos rastros desse tempo
Ficaram em mim marcados,
Picaneando o osso do peito
Tal qual as
esporas num aporreado.
Parti, guiado pelo cincerro,
Alcançando os horizontes...
Depois segui nas colunas
Com ideais de igualdade,
Mas por bueno, quando voltei,
Apenas o silêncio e rancho,
O rancho... E ninguém mais encontrei...
Então, essas minhas retinas
Que a lua cheia temperou,
Adormeceram a campo
Proseando com as estrelas,
Marcando a vida de nada...
Cruzando estâncias e
fronteiras,
Distante de mim e dos meus
Pateando por essa vida
inteira.
A estrada ficou tingida
Pelos tantos desalentos,
Mas não deixei apagar o
rastro
Tendo a saudade por sentença
De reencontrar os meus,
Nem deixei morrer a esperança
De rever o meu início de ser,
Porque hoje, só resta lembranças...
Hoje cedito
apeei por lá...
Aparei um fumo, amaciei a
palha,
Enquanto as lágrimas
Sublinhava meu rosto em
despedida,
A minha sombra ao chão
Escura... Deitada para vida,
Carregava esse rude desgosto
Sem deixar cicatrizar a
ferida.
E é por isso, que ouço tantas
vozes
Atropelando meu coração,
Na teimosa busca da paz,
Quero encontrar alegria para
mim,
Que o tempo me fez render...
Vim desvendar este mistério,
Pois quando eu for partir
Não quero levar junto pro cemitério.
- Padre,
Por ser temente a Deus
Peço perdão aos meus
feitos...
"Eu,
em nome de Nosso Senhor...
Te "abençoou, e te bendigo
andarilho”
- Então Padre, por eu estar
absolvido..
Ouça esse velho caudilho
Que também te abençoa...
- Meu único e amado filho...