O Cusco do Zeca Preto
José Mauro Ribeiro Nardes e Francisco
Carneiro Neto
A se julgar pela sombra,
Era meio dia e meia,
Enquanto o dono sesteia,
O cusco
cuida da tropa,
É de costume essa troca,
Pois cachorro de tropeiro,
É de confiança e parceiro,
Quando o dono lhe convoca.
A tropa não era grande,
Nesta primeira viagem,
Era um lote de amostragem,
O resto iria depois,
Algumas dúzias de bois,
Gado costeado da lida,
Que nunca se alçou na vida,
Por isso, só foram os dois.
Todos cansados da estrada,
Gadaria, cusco e dono,
A sombra convida ao sono,
E o pobre do cusco dormiu!
Enquanto o baio não viu,
A tropa foi se espalhando,
Pouco a pouco desgarrando,
Pegou o rumo do rio.
O cusco
acorda primeiro,
Percebe a ausência da tropa,
Enquanto o Zeca não nota,
E, sentindo ser o culpado,
Saiu procurando o gado,
E encontra um boi indo ao
fundo,
Pedindo socorro ao mundo,
Como em reponte, levado.
O alarido do cusco,
Avisou o Zeca Preto;
Latido e berro são dueto,
Mais forte que a cachoeira,
Peitando a onda traiçoeira,
O pobre baio latia,
Enquanto o touro sumia,
Na crista da corredeira.
O Zeca nadava pouco,
No susto, nem quis conversa,
Entrou na água, depressa;
Mas pressa não é prudente!
Nadando contra a corrente,
Foi chegando sem ensaio,
Enquanto o cachorro baio,
Firmava o touro no dente.
Foi bem na curva do rio,
Onde a água “redemunha”.
O cusco,
a dente e à unha,
Já não tava
dando conta,
A água empurrava contra,
E o peão campeiro se foi,
Direto à guampa do boi,
Que espeta o Zeca na ponta.
Uma borbulha vermelha,
Pinta o último lampejo,
A partir daquele ensejo,
Nunca mais se viu os dois,
Foi o Zeca e foi o boi,
Naquela batalha trina.
Salvou-se a “alma” canina;
O cusco, foi bem depois.
O cusco,
até o fim da vida,
Não aceita o desapego,
Morreu esperando o Zeca
Preto,
Sem entender a demora.
Talvez esteja, agora,
Na batalha absoluta,
Campeperiando, em reculuta,
Os dois que o rio levou
embora.