SOU
Adriano Silva Alves
Sou...
Ainda sou;
Irmão do chão, onde piso,
Filho da terra, onde estou.
Sou, como estes claros silêncios que escolhi ouvir
E que também me ouvem, por
saber minha voz,
Esses,
entendem as razões que tenho, de retornar em vento
E dividir lamentos, bordoneando solitário, junto as
cordas do alambrado
Uma milonga sentida, que ainda insiste em dar
vida;
Pra o verso que nunca fiz...
Sou, a mesma tira de tento, da lonca
dos desenganos
Que atei, na idade dos anos,
junto a forma das esporas e um par de botas de
potro...
Meus iguais e tantos outros,
irmãos de sina e desterro;
Que a sombra escura do medo, não deixa
mostrar o rosto...
Sou, feito a crina do potro,
preza ao sincero de um grampo,
Que entende, ser o arame,
divisor das liberdades,
Das sentidas igualdades, que buscam, os “olhos” do campo...
Sou, a poeira que levanta, pra reinventar os caminhos
Mudando as formas do pago,
por sobre o lombo dos ventos,
E as geografias antigas, que
não sabiam fronteiras;
Refazem seus argumentos, ganhando cismas de
tempo,
Pra renascerem, nos ponchos,
nos pelos, no ferro de esporas;
Na copa, há muito judiada, dos chapéus de andar tropeiro...
Sou, o rio em caudal de espinhos, que turbulento passa,
sem perceber a barranca,
Bem onde a flor, “alma
branca”, abre pétalas sentidas;
Talvez, prenunciando a vida, talvez, sonhando uma
espera,
Do amor, em asas abertas, que
despertou primavera, na ingênua face de um beijo...
Sou, como a simples razão das
luas, que emprestam a forma dos ranchos
Feitos de antigo, de barro,
de sereno e santa fé;
E acolhem frágeis encantos,
na humildade dos filhos,
Na paz dos tocos de vela, que iluminam as
preces, na forma de “sinais Santos”;
Ou que protegem,
os “assombros”, das intenções da infância...
Sou, a lacrimada palavra, que se despede da alma, para
habitar um adeus,
Que não prendeu-se
ao aceno, que a seda do lenço branco, redesenhou na porteira;
Paciente e
verdadeira, como a imagem de quem fica,
Corajosa e
solitária, como a imagem de quem vai...
Sou, o mesmo véu de sereno, que acorda em “alva” pele de
geada,
Com seus mistérios de frio...
Cristalizando uma lágrima,
que desprendeu-se da noite, ou do silêncio de
estrelas;
Pra revelar-se inteira, sobre
o secreto dos pastos, benzendo as horas dos cascos,
E endurecendo, os passos das
barbudas alpargatas,
Que manifestam as razões, de
reencontrar seus caminhos, antes dos “olhos” do sol...
Sou, o suor que escorre na face, os seus feitiços de sal,
Derramando esperanças, na
força bruta dos pulsos,
Justificando a tentativa
humana, de ferir a terra, pra plantar sementes;
Pra colher o fruto e
transformá-lo em pão...
Sou, a identidade do negro, na gesta dos seus primeiros,
na formação do seu tempo,
Na dor do encanto que tenho, que se reflete em amor...
Junto ao perdão ajoelhado, de
quem não sabe ser prece, de quem não tem uma cruz;
Antes avesso da luz, por
compreender os escuros,
Hoje avesso aos escuros,
buscando o incerto da luz;
Aroma perfumando a flor da
pele, onde as pétalas, por certo não tem cor...
Sou...
Sou teu igual, Genuíno;
Irmão do chão onde piso,
Filho da terra, onde estou...