SIMPLESMENTE... GAÚCHO
Cristiano ferreira
Pereira
Mal fresteias um vistaço a tua volta,
nesse ranchito humilde
que te acolheu no mundo,
para buscar saber onde estás
e quem tu és...
Talvez...
em palavras poucas
- qual o tempo teu -
bastasse dizer de quem vens,
a tua origem genética,
para que - sabendo do barro de que és feito -
entendas... quem tu és!...
Tens nas tuas veias
o sangue miscigenado
de séculos da existência
de um povo aguerrido,
que firmou raízes
por estas terras do pampa.
Tens o sangue do índio
que habitava estas plagas,
valente e terrunho, latente e incontido...
De quem conhece
a força desse solo,
de quem sabe lidar com os bichos,
sabendo tirar da terra o que ela provém
mas... devolvendo o seu quinhão.
Trazes
a firmeza do braço
do
lanceiro que peleou nas contendas
que
a tua gente fez
em
defesa da honra e desse pago,
pela
hombridade e consciência dessa gesta.
Quem
sabe, ainda, seja a força
e
a destreza de um desjarreteador,
que
abatia o gado xucro campo afora,
nos
idos das vacarias,
quando
não havia cercas nem mangueiras.
Também
a mão calejada do alambrador...
a
plantar moirões e esticar arames...
ao
afinar a guitarra do aramado
para
o cantar livre dos ventos.
Isso
ainda de quando as cercas eram
para
o manejo com o gado,
não
para reterem gente ou apartarem povos.
Carregas
no olhar...
a
atenção do tropeiro...
ao
bombear o caminho,
escolher
cruzadas
e...
diante do rigor
de
sol e chuva, mormaço ou geada
-
que deixou a tua estirpe
de
couro grosso, por ser pêlo-duro -
rumbear
com a sina das trilhas e estradas,
benzer
tormentas...
ou
cruzar assoviando uma coplita mansa
num
“volver” solito.
Mais...
ainda,
o
tino de um peão de estância
-
desses de todo o serviço -
de
acordar os galos...
e
encilhar antes do alvorecer.
De
sovar arreios e topar de frente
com
as agruras do seu dia a dia,
sob
a intempérie e o rigor da lida,
mangueando
a sorte que regala a vida
para
um porvir tranqüilo para a sua cria.
Desses
que quando chove...
ou
nas horas de “folga”...
trança
seus tentos de história e crenças,
até
o arremate a capricho.
Pois
até o barreiro altera o seu tom...
pra
o canto enfrente ao galpão,
pelo
respeito que se tem à obra deste peão...
que
lida de guasqueiro não é ofício... é dom.
Quem
sabe... ainda, tragas,
a
atenção e a fibra da peona,
essa
olvidada por muitos escribas
e
que margeava as casas,
na
labuta de tarefas e quefazeres,
que
tecia e cuidava dos guaxos,
que
foi mulher e guerreira,
esposa...
e enfermeira,
fundida
ao solo no pranto da ausência,
chamando
à Querência àqueles tão caros,
esposo
e filhos que - com ela -
fizeram
o Rio Grande!
O
traço forte do negro...
levas
marcado na tez.
Negro
que veio escravo,
que
ombreou postes e pedras
para
erguer os ranchos e galpões,
cercas
e mangueirões.
Que
trouxe o ímpeto guerreiro
e
a insaciável sede de justiça que sentes
...sem
saber.
Negro
que peleou pelo ideal dos teus,
mesmo
sendo tratado bem diferente,
pois
quando erguida - inconseqüente -
muita
mão covarde...
surrou
homem valoroso e valente,
apenas
por ter cor e crença distinta
ou
pelo temor de sua capacidade de lutar...
sem
saber do valor da sua semente,
que
expele pelos poros de nossa gente
na
coragem e na gana de ter paz.
Quisera
poder explicar,
o
que procuras enxergar.
Mas
bombeando ao teu redor,
vais
entender que teu lar
é
parte de uma odisséia
de
muitos e muitos homens e mulheres,
-
inclusive de além mar -
que
pelearam pelo direito a liberdade
e
o de ter paz e igualdade,
superando
adversidades
por
anos e anos, ao longo de séculos,
pela
força de seu sangue,
pela
saga de coragem,
abençoada
pelo suor que dignifica
a
vida simples, sem luxo.
Te
digo isso... guri,
misto
branco, negro... bugre...
para
que saibas,
que
tu és prova viva dessa história,
uma
página de glórias
ou
simplesmente... Gaúcho!...