O VIAJANTE ENRAIZADO
Autor: Rodrigo Bauer
I
Viajante!
Por mais que me despeça e lote a mala,
por mais que, pela estrada, abane o
pala,
permaneço.
Por mais que o vento empurre o meu destino
me prende um laço - outrora um boi
brasino -
e eu padeço...
Viajante!
Eu iço as velas pelo céu afora
e o mar, indômito, me leva embora
pelo avesso!
Não vou, mesmo a caminho, navegando,
retém-me alguma âncora, até quando
esmoreço...
.
Viajante sem estrada,
percorro a geografia desses nadas
com a bússola da alma, bruxa sem
maneias...
Viajante enraizado,
enxergo, dentre a treva, o apagado
e o súbito na calma, ao tempo das
areias!
Enraizado...
Por tantas gerações no mapa-pampa:
do ventre ao berço ao basto ao catre
à campa;
adormeço!
O vento arranca as ramas e as sementes
e, assim, no que serei, eu sigo em
frente
e envelheço...
Enraizado...
Eu cruzo as longitudes do planeta,
deixando atrás um rastro de carreta...
Pago o preço!
Às vezes, o quintal de nossa casa
nos vale muito mais que um par de
asas,
reconheço...
Viajante sem caminhos...
Escrevo o rastro nesse pergaminho
de inóspitos desertos e rincões tão
verdes...
Viajante enraizado,
conheço o que não foi apresentado,
no cíclico vapor que há de matar-me
a sede...
II
Partir sem repartir os elos da corrente...
Andar pelas veredas mais desconhecidas;
nos passos a lonjura do
reminiscente,
no espírito a raiz jamais
enfraquecida...
Sou como os galhos fortes de um ipê frondoso
que nunca se desprendem acenando à
estrada!
Plantado, vou vagando, ermo e venturoso...
Caminhos sedentários, nômades moradas!
Viajo pelos livros, pelas mãos do sonho...
Viajo em meu olhar que ganha o horizonte!
Existe uma cancela e eu não a transponho...
Há um rio antes da estrada e não encontro a ponte!
Ao ter raízes fundas e ser viajante,
a antítese equilibra-se em meu
coração...
Há algo de pacifico e beligerante;
um não sei quê de mouro e parte de
cristão!
Andante como o velho cavaleiro andante
que a sombra da loucura fez lutar em
vão,
vou, quixotescamente, ébrio e
delirante
voando sem tirar, jamais, os pés do
chão!
Dos mouros, dos ibéricos, tanta magia!
O sangue é um viajante enraizando a história...
Verteu pelas espadas das cavalarias;
pulsando veio a nós, por veias
transitórias!
Talvez seja um feitiço que há nos meus galpões...
Talvez venha das velhas furnas do Jarau...
O apego pela terra eu trago de Simões
e a sede dos caminhos do campeiro
Blau!
No antigo Martín Fierro ainda encontro abrigo...
Em mim há o paradoxo, eminente e vago...
O tempo traz no vento o Capitão Rodrigo;
são todos viajantes em seu próprio
pago!
Comigo eles viajam, de peçuelos cheios...
Andamos todos juntos, mesmo eu indo só!
Meu lar é o que carrego junto ao meu arreio,
e o vento caminheiro vai erguendo
o pó...
Por isso em qualquer rumo dessa esfera imensa,
por onde quer que andemos, sobre ou
através,
levamos na bagagem toda essa querência
e o sul segue conosco, sob os
nossos pés!